Em Romanos 12.1-2, Paulo associa “século” e “mente”. Naquele tempo, ainda não se filosofava sobre ideologia, no sentido político do termo. Muito menos sobre a formação social da consciência. Consciência de classe, então, nem pensar! Esses são conceitos modernos. Mas os ingredientes dessas descobertas já existiam entre os filósofos gregos e romanos. E encontramos o apóstolo Paulo a nos alertar sobre o poder conformador do meio em que vivemos sobre nossa mente. Como que a dizer que nosso modo de sentir, pensar e agir tende a acompanhar a sociedade em que vivemos — nosso “século”. A tal ponto que, se quisermos ser “normais”, teremos de nos deixar secularizar.

A exortação, então, é que não permitamos que essa fôrma secular conforme nossas mentes, de modo acrítico, mas que cuidemos de ultrapassar a fôrma deste século — que nos transformemos — e que nos conformemos à mente de Cristo. Que missão!

Ao buscarmos as oportunidades de reevangelização que uma sociedade cada vez mais pluralista nos oferece, precisamos responder à pergunta: que século? Porque se soubermos de que sociedade estamos falando, saberemos também a que “mentes” destinaremos nossa mensagem (re)evangelizadora.

A mente secularizada de nosso “século” sonha com um lar. Ela é cidadã do mundo (portanto, não tem pátria; sendo de todos, não pertence a ninguém); vive numa “sociedade-supermercado”, sob o império das diferenças; conformou-se ao hábito de escolher nas prateleiras da vida; é consumidora e consumista; é relativizada e gosta de poder optar; é horizontalizada (o valor do que é ofertado nas prateleiras depende de quem escolhe); é volúvel (não resiste a uma oferta, a uma novidade, a uma promoção); é superficial como uma borboleta (sempre de passagem para a próxima flor); é hedonista (seus critérios de escolha são o prazer: pessoal, íntimo e intransferível); é iconoclasta (porque é horizontalizada) e tem como valor maior e bússola existencial sua auto-estima.

Essa mente sem lar é livre, leve, solta — e órfã. Não deve satisfação a ninguém; não precisa agüentar ninguém; não aceita intromissões, não deseja relações profundas nem duradouras. Mora sozinha, por opção. Seus votos de casamento valem menos que uma placa de 20 km/h na estrada.

Mas essa mente sonha com um lar. Sim, ela foi criada para viver em comunidade, ancorada emocionalmente por referenciais, protegida por gente que gosta dela; carregada no colo por afetos duradouros. Ela foi projetada para viver em família. A reevangelização dessa mente precisa incluir a oferta concreta do amor de Deus. Um amor que receba, acolha, perdoe, restaure, coloque um anel no dedo e uma sandália nos pés.

Essa mente não sabe ser convencida. Não quer decidir logicamente. Não resistirá acordada à nossa apologética. Mas poderá ser seduzida por uma manifestação afetiva, sacrificial, não-combativa, não punitiva da igreja. A doutrina certamente terá o seu lugar na renovação das mentes, para que seja possível experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Mas ela virá ao seu tempo. Agora, ela pode matar o paciente. O tempo é de leite. Com o crescimento, a criança passará a mastigar alimentos sólidos. E a Palavra será seu guia.

Para reevangelizar o mundo pós-moderno é necessário que nos renovemos, pela transformação de nossas mentes, e desenvolvamos uma especial capacidade de encarnação, num século de almas tão altivas quanto desesperadas; corações que de dia desprezam o Senhor, mas à noite anelam por ele.

(*) Adaptado de participação no Encontro de Amigos, da Revista Ultimato, em Viçosa, julho de 2008, e publicada na edição 315.

Vivemos um tempo em que as pessoas se amam. Um fenômeno de dimensão sem precedente na história do ocidente.

A expressão “auto-estima”, como justificativa politicamente correta ou objetivo universalmente aceito para qualquer ação, está presente em cada conversa de cafezinho, em programas pedagógicos, no planejamento governamental, na boca de políticos e até de quem não sabe o que dizer. Você precisa de um bom motivo para justificar o que deseja fazer? Diga que faz bem à sua auto-estima; que você se ama.

Entre os crentes, a expressão já foi justificada biblicamente e aceita, sem receio de mundanismo: para amar o meu próximo como a mim mesmo, preciso primeiro amar a mim mesmo. Amar ao próximo, portanto, requer auto-estima.

Acho positiva essa moderna preocupação com a saúde do “eu”. Em especial, quando ela se materializa na cultura da saúde: na onda do fitness (malhação em academias) para qualquer idade, nas caminhadas, na hidroginástica, na comida saudável, na dieta da moda, nos spas, nas grelhas que eliminam a gordura, nos cereais matinais, nos iogurtes com bacilos, nos complexos vitamínicos, no consumo de fibras, na redução de colesterol, nos três litros de água por dia etc.

Essa moda traz também o cuidado com a mente e com o “eu espiritual”. Surgem, então, os livros de auto-ajuda, as revistas especializadas em bem-estar e forma física e mental; os gurus do anti-estresse, os mentores espirituais, os psicólogos pessoais (personal shrinks), conselheiros financeiros etc.

Não é difícil de notar que toda essa preocupação com a saúde vem sendo incorporada pelas novas gerações como estilo de vida. Chega a assumir a força de religião. Por exemplo, uma caminhada no parque, hoje, é uma desculpa aceitável para recusar uma hora-extra. Diga que esse cuidado que pretende ter consigo mesmo já estava agendado. Já no limite do aceitável, você pode justificar a falta a um casamento dizendo que tem trauma de casamentos à tarde. Bem, talvez compreendam que você está cuidando de sua auto-estima. Trauma é uma palavra da moda. Vale tudo para evitar.

O lado saudável disso tudo não deve, no entanto, nos encobrir uma sutil ameaça ao cristianismo: a confusão entre auto-estima e egoísmo. Nos dois casos, estou investindo em mim mesmo. Mas o “ego-ismo”, significando “eu-ismo”, tende a me afastar dos outros, levando-me a um individualismo que me separa dos outros, que me isola. Temo que, em poucos anos, se tivermos que escolher entre “nós” e “eu”, o “eu” ganhe todas. Temo que a auto-estima se fortaleça às custas da solidariedade. E que esse “eu” se transforme em um dragão que devore a caridade; devore aquele amor altruísta que se faz pão e vinho e se derrama em serviço, em lava-pés.

Talvez eu esteja exagerando em meus temores. Queira Deus! Mas tenho orado, nesse sentido, por nossa igreja. Peço que a hipertrofia do nosso “eu” não nos conduza à transgressão. Peço por discernimento. Peço que aprendamos a cuidar de nós mesmos sem esquecer o ensino de Jesus: “se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24).

O mercado vale-se do belo para vender. Honesta ou ardilosamente, ressalta o aspecto estético de um produto, sabendo que a natureza humana, inconscientemente, o associará a qualidade. Isso serve para a aparência limpa e bem refrigerada de uma lanchonete, para o design sofisticado de uma loja de marca mundial ou mesmo para o terno azul-marinho, de corte impecável, de um executivo que deseja “vender” a imagem de competência. Marketing (espero que o uso do termo em inglês cause esse efeito abonador sobre meus leitores).

De fato, a beleza sempre remete para o bem, para a pureza, para a perfeição. O fenômeno é universal. E também de difícil explicação.

Curiosamente, o dicionário (Houaiss) define o belo como sendo tudo que leva ao aperfeiçoamento espiritual do ser humano; o próprio Deus, enquanto manancial eterno e perfeito de tudo o que é propício ao progresso das criaturas e finalidade desse progresso; sublime. Sublime? Sim, a extrema beleza. Fecha-se o círculo entre o belo e o bem: aquilo que apresenta inexcedível perfeição material, moral ou intelectual.

Veja que “sublime”, nas Escrituras, é um título de Deus (Is 57,15) e uma descrição de seu Servo (v.13), e que, nesses versos, a sublimidade se associa à santidade de Deus. Aquele que vivifica o “contrito e abatido de espírito”.

É interessante notar que, para fazer marketing de si mesmo, Satanás se apresenta belo como um anjo de luz, e seus profetas bons como ministros da justiça (2Co 11,14,15). Sim, o uso ardiloso desse conhecimento da psiquê humana vem de muito longe. Não tendo a beleza própria do bem, imita o sublime para enganar os incautos. Refiro-me aqui, ambiguamente, tanto a Satanás quanto a produtos e serviços de má qualidade “maquiados”.

No entanto, o verdadeiro não precisa de maquiagem. Nem o santo. Nem o justo. Nem o contrito e abatido de espírito. Porque essas formas de beleza provêm de uma fonte legítima, primária e inesgotável: o Sublime.

Uma palavra que unificaria essas belezas morais é salvação. É assim que compreendo a afirmação do Salmo 149,4b: …e de salvação adorna os humildes. Uma salvação progressiva, no sentido da santificação (Fp 2,12), qualidades e características que Deus infunde e molda naqueles que se fazem maleáveis às suas mãos de oleiro.

A beleza proveniente dessa ação salvífica de Deus dispensa maquiagem. Nem tem o objetivo de vender. É apenas glória. A glória de Deus em nós. Não fenece com a idade, não perde o brilho nem o viço. Não precisa de plásticas nem de liftings. Uma beleza serena e alegre, que vai dormir com um cântico no coração; o cântico da consciência lavada. Esse não é um pensamento meu, mas do verso seguinte: Exultem de glória os santos, no seu leito cantem de júbilo (Sl 149,5).

Se é verdade que o coração humano decodifica a beleza como perfeição, e vice-versa, também o será que todos serão capazes de perceber a beleza da salvação; essa beleza com a qual Deus adorna o humilde. E que aponta de volta para sua glória.

Na velhice darão ainda frutos, serão cheios de seiva e de verdor (Sl 92,14). Belos velhinhos.

Às vésperas do carnaval, a Igreja Católica representa judicialmente contra a distribuição da “pílula do dia seguinte”, e o Ministro da Saúde vai à televisão para dizer que “a Igreja errou mais uma vez, pois a prevenção da gravidez não é uma questão religiosa, mas de saúde pública”. A Igreja reage, dizendo que a Lei de Deus é para todos. Desfecho: juíza determina que a distribuição seja feita, por entender que o método não é abortivo.

Se o ministro tivesse tido tempo para pensar, talvez escolhesse melhor as palavras. Mas o afogadilho precipita os fatos. Por um lado, o arcebispo de Recife e Olinda leva uma questão que acredita ser matéria de fé para um tribunal secular; por outro, o ministro manda-o recolher-se aos seus domínios, sem precisar quais seriam eles.

Penso que o ministro está certo, ao dizer que a orgia carnavalesca é questão de saúde pública. Mas também concordo com o arcebispo, quando sustenta que o assunto tem a ver com Deus, pois envolve a alma humana. Talvez ainda venhamos a saber por que razão ele levou questão à Justiça. Mas desconfio dos pressupostos ocultos do ministro que, certamente, fala por um governo de orientação ativa e passivamente liberal.

E não pensemos apenas em moral sexual, pois aprendemos com o apóstolo Paulo que a degradação humana nunca vem por um pecado só (Rm 1:21-27), embora sempre bata ponto numa cama. A propósito, pesquisa revela que, na novela global Sete Pecados, o da luxúria ultrapassa, em número de cenas, todos os outros seis pecados juntos. Por quê? Palpite: predileção.

Acho que, ao classificar a promiscuidade no carnaval como de saúde pública, o ministro Temporão pensou mais em prevenção do que no conceito de saúde. Por ser pragmático, talvez ele tenha trocado o importante pelo urgente. E o urgente, imagino, é evitar que o índice de abortos clandestinos fuja ao controle; que o número de recém-nascidos achados nos lixos, nos esgotos, nos córregos, seja de proporções epidêmicas; que as famílias das meninas que sairão grávidas ou infectadas dessa “festa popular” empobreçam, e até que o governo tenha que gastar em penitenciárias para receber os “filhos enjeitados do carnaval” de 2008.

O ministro tem estatísticas nas mãos e sabe que, diferentemente da Cultura ou do Turismo, para sua pasta, carnaval é sinônimo de tragédia.

E como ele enfrenta essa ameaça? Distribui, gratuitamente, pílulas e camisinhas aos foliões. E resolve? Bem, concordo, evita o pior, momentaneamente. Mas não resolve, pois não existe camisinha para alma promíscua (nem mesmo as cinzas da quarta feira, sem verdadeiro arrependimento).

Senhor ministro, deixe a Palavra de Deus ajudar. Ouça-a. Se aborto, gravidez indesejada, AIDS, evasão escolar, desemprego etc. não são problemas religiosos, então o que será? As providências de V. Excia. são tão eficazes quanto tratar catapora com esparadrapo.

Já imaginando o que ele me responderia, deixo-lhe um respeitoso alerta:

Tens feito estas coisas, e eu me calei; pensavas que eu era teu igual; mas eu te argüirei e porei tudo à tua vista (Sl 50:21).

Transcrevo, a seguir, um texto publicado no Blog “Pé na África” da Folha Online. Eis o link para o artigo. Somente um detalhe: o presidente da Uganda e sua esposa são crentes.

Aids em Uganda: o moralismo funciona

KAMPALA (UGANDA) – Falei quase nada sobre Aids até agora, o que é uma falha, visto que a doença virou uma marca registrada desse continente.

Então é bastante apropriado que eu toque no assunto aqui, em Uganda. Aids é uma obsessão nesse país, quase uma mania nacional. Por onde você anda, vê centros clínicos, ONGs, igrejas, escolas, com aconselhamento de prevenção ou tratamento para HIV/Aids etc. etc. E placas, cartazes, faixas, tudo que se refere à doença.

De vez em quando é bom ver uma história de sucesso nesse continente, só para variar, e o combate à Aids em Uganda é um sucesso inquestionável. Há 15 anos, cerca de 30% da população tinham o vírus; hoje, são 6,5%.

Enquanto outros países perdiam tempo fingindo que nada acontecia, e até negando que HIV cause Aids (como na África do Sul, onde a taxa é de mais de 20%), os ugandenses agiam para conter a doença. Falar sobre o assunto, assumir o problema e discutir candidamente foi o primeiro passo. Mas teve mais.

Uganda trata a Aids de uma maneira como nós nunca faríamos no Brasil. Uma maneira inusitada, para dizer o mínimo. E assumidamente moralista.

Um exemplo do que acontece por aqui: imagine que você é um oficial do governo e precise traçar uma estratégia para reduzir a incidência de Aids junto a caminhoneiros. Em vários países, esse é um grupo delicado: estão sempre longe de casa, cruzam fronteiras, são cercados por prostitutas o tempo todo. São potencialmente um fator de disseminação da doença. E muitos chegam em casa e podem contaminar suas esposas.

A meu ver, a lógica mandaria que se propagandeasse o uso de camisinhas entre caminhoneiros. Mas veja como é o cartaz do governo de Uganda que vi na sede de uma ONG:
Diz o pôster: “um motorista responsável se importa com sua família; ele é fiel a sua mulher”. O foco não é tentar fazê-lo se proteger quando dormir com prostitutas. Mas tentar convencê-lo, antes de tudo, a não ter a relação sexual. Parece ingênuo, mas o governo acha que funciona. E talvez funcione mesmo.

No Brasil, a ênfase das campanhas contra Aids é no sexo seguro: use camisinha, em outras palavras. Em Uganda, a promoção dos preservativos é apenas a perna mais fraca de um tripé que conta também com a promoção de abstinência e a fidelidade.

O slogan do governo é ABC: A é a inicial de abstinência, B é de “be faithful”, ou seja fiel, e C é para condom, ou camisinha.

Uganda é um país com forte influência das igrejas católica e evangélicas. O presidente, Yoweri Museveni, é, a exemplo de George Bush, um “born again christian”, ou seja, um cristão renascido, que descobriu sua fé no meio da vida. A primeira-dama, Janeth, é ainda mais religiosa.

Não surpreende, então, que o governo coloque tanta ênfase nas letras A e B. Abstinência é direcionada aos jovens, principalmente de menos de 25 anos, idade média em que eles se casam, incentivando-os a se manter virgens até o altar.

O B é dedicado aos casais, pedindo que sejam fiéis. Só em último caso, se a pessoa não conseguir se abster ou for um pulador de cerca contumaz, vem o C: pelo menos use camisinha.

Percebeu a diferença? O enfoque tradicional em vários países, inclusive no Brasil, é centrar fogo na camisinha. Em Uganda, camisinha é um último caso, quase o recurso dos pecadores.

Hoje conversei com representantes de duas ONGs, esperando ouvir algumas críticas à política do ABC. Nada. Aprovam 100%. Há um consenso nacional em torno do tema. Sobra para organizações estrangeiras descerem o pau, dizendo que é irreal esperar que um jovem de 20 anos se mantenha virgem.

Mas os números estão aí, desafiando o que diz a lógica e a convicção de muitos (como eu). São um tapa na cara dos céticos.

Diante do convite para falar aos irmãos da Fraternidade Teológica Latino-americana (FTL-BR), que realizava consulta nacional sobre o tema “teologia e arte”, pensei em fazer uma espécie de anatomia de minha incipiente experiência pessoal, na seara da arte e adoração.

Pensando em fazer uma reflexão pessoal, evitei os livros. Com isso, corro o risco de dizer o que já foi dito, ou carecer de consistência. Paciência.

Meu propósito é encontrar em meu próprio coração um sentido, uma razão, que integre a arte e a adoração num sistema razoável (o “culto racional” do apóstolo Paulo).

Adiantando a conversa, esse sistema harmonizaria os seguintes conceitos:

    1. ◦o bem, envolvendo o Criador e a sua criação;
    2. ◦o belo, o sublime e o inefável;
    3. ◦a gratidão, adoração e culto e
    4. ◦o louvor e a arte, exteriorizações do coração.
  1. Minha tese, exposta no primeiro pensamento, a seguir, é que esses conceitos são indissociáveis na adoração. Sempre que um deles está presente, encontramos os outros, de alguma forma. E se algum deles falta, temos uma adoração deficiente. É o que encontro, olhando para minha experiência. Resta saber se é uma experiência generalizada e generalizável. Daí eu ter aproveitado uma “consulta” da FTL para apresentar o tema, com uma pergunta implícita: “isso é assim com vocês?”.

Como sabemos que as palavras (e os conceitos que elas representam) são mediadoras da realidade, ao ponto de termos nossa consciência atrelada à linguagem, a tradução de realidades internas em conceitos pode ajudar-nos a compreender as razões do nosso próprio coração. Foi esse o pressuposto que me animou a aproveitar a oportunidade para socializar questões, de forma estruturada.

Bem, o caminho adotado foi uma espécie de exploração de significados, em busca de palavras mediadoras. Uma tentativa de olhar para dentro, para meu próprio coração e, dali, retirar definições suficientemente genéricas para serem compartilhadas. Para tanto, organizo meu relatório de viagem em sete pensamentos ou proposições. Vamos a eles.

1. Aprouve ao Criador que o coração humano fosse capaz de decodificar o bem como belo e, assim, aprendesse a expressar gratidão, esteticamente.

Acredito que ao homem foi dado expressar-se afetiva, emocionalmente, “de todo o coração”. Nessa aptidão emocional reside a capacidade artística. O dom da estética. Talvez por isso, o incenso do choro e as flores do louvor exalem perfumes tão gratos a Deus, a ponto de convidá-lo a passear no meio deles.

Desenvolvo um pouco mais meus termos, pois considero esse primeiro pensamento a base para os demais.

Aprouve ao Criador — Essa capacidade provém de Deus. Na forma de dom ou talento, ele a distribui, conforme sua sabedoria e propósitos eternos. Penso que tudo começa com um Deus que implanta no coração do homem o dom da estética. Refiro-me, então, ao coração como a sede metafórica das emoções e dos afetos. A arte, a meu ver, é a capacidade de perceber e expressar o belo emocionalmente. Eis um verso bíblico esclarecedor:

    1. ◦Disse mais o Senhor a Moisés: Eis que chamei pelo nome a Bezalel… e o enchi do Espírito de Deus, de habilidade, de inteligência e de conhecimento, em todo artifício, para elaborar desenhos e trabalhar em ouro, em prata, em bronze, para lapidação de pedras de engaste, para entalho de madeira, para toda sorte de lavores” (Êx 31:1-5).
  1. Decodificar o bem como belo — Essa associação entre o bem e o belo é, a meu ver, a mais remota predisposição humana para a arte. E se todo bem provém dele, faz-se ele mesmo o bem maior, estando ele mesmo na origem do senso estético humano. Mas saliento que, por enquanto, essa predisposição se manifesta potencialmente, pois o bem e o belo ainda são externos ao homem. Nesse momento teórico, ele apenas é capaz de percebê-los, de decodificá-los e de gozá-los ou fruí-los. Veja alguns versos sobre isso:
    1. ◦Tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome; trazei oferendas e entrai nos seus átrios; adorai o Senhor na beleza da sua santidade (1 Cr 16:29).
    2. ◦Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo (Sl 27:4).
    3. ◦Naquele dia, o Renovo do Senhor será de beleza e de glória; e o fruto da terra, orgulho e adorno para os de Israel que forem salvos (Isaías 4:2).
  2. Esses versos nos levam a considerar que, se Deus é o bem maior, há de ser percebido pelo coração humano como a beleza maior, por força dessa associação inevitável. Então, sob o impacto do bem, nosso coração experimenta a estética — o belo.

Expressar gratidão esteticamente — Por que a gratidão se inclui nos processos psicológicos da estética? Porque não estamos falando de psicologia, apenas, mas também de teologia. E a gratidão aparece, a meu ver, como elemento essencial na percepção de Deus. Sem gratidão, não temos olhos para Deus. E, sem vê-lo como ele se nos apresenta, tornamo-nos esteticamente deficientes. Ao ponto de o apóstolo Paulo dividir a humanidade entre aqueles que o reconheceram como Deus e lhe deram graças e aqueles que se embruteceram, e fizeram sua arte representar aves, quadrúpedes e répteis (Rm 1:23).

Veja como o apóstolo unifica esses conceitos, em Cl 3:16b: “…louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração”. Numa só frase, ele fala de louvor, de arte, de gratidão e do coração, ao nos ensinar sobre como viver a vida normal da igreja; como vivenciar o mistério da nova e sobrenatural sociedade engendrada no coração do Pai, antes da fundação do mundo, viabilizada pelo Filho e potencializada pelo Espírito.

O coração humano tem fome e sede do bem. E só se sacia quando se alimenta de Deus, que é verdadeira comida e bebida da alma. Quando se depara com um, confunde-o com o outro, e experimenta o sublime. E tudo isso lhe causa imenso prazer; o prazer de um banquete estético. (Um pensamento divertido: eis a origem da arte culinária.)

2. Quando o bem (o belo, o sublime) e a gratidão se encontram, no jardim do coração humano, este, buscando representar o inefável, extravasa-se, emocionalmente, em adoração, culto e louvor, por meio da arte.

Quero me fixar, inicialmente, na idéia do extravasamento. A imagem que me ocorre é a de uma erupção vulcânica. Penso, também, negativamente falando, numa explosão colérica, num acesso de raiva. Diante da percepção do bem, decodificado como belo ou sublime (veja as definições adiante), o fenômeno acontece no coração e se manifesta em doçura, cores, perfumes, sons harmônicos e poesia. Um extravasamento próximo da arte. Ilustro o fenômeno com a poesia do salmista:

    1. ◦A voz do Senhor faz dar cria às corças e desnuda os bosques; e no seu templo tudo diz: glória! (Sl 29:9)
    2. ◦Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda (Sl 23:5).
    3. ◦Cantai ao Senhor um cântico novo, porque ele tem feito maravilhas; a sua destra e o seu braço santo lhe alcançaram a vitória (Sl 98:1).
    4. ◦Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade (Sl 8:1).
  1. Imagino encontrar nesse louvor o extravasamento daquele que se depara com as obras do Senhor ou, por meio delas, contempla o próprio Deus. Não penso em uma manifestação artística, necessariamente, mas sim em sua condição emocional. Esse extravasamento não é, necessariamente estético, mas está muito próximo dele.

Talvez seja tempo de algumas definições que nos permitam perceber como certas palavras usadas se interligam no que chamei de sistema de significados. Recorro, agora, ao dicionário. Quando não encontro, defino, eu mesmo, meus termos.

  1. •Bem (H = Dicionário Houaiss)
    1. ◦tudo que leva ao aperfeiçoamento espiritual do ser humano;
    2. ◦o próprio Deus, enquanto manancial eterno e perfeito de tudo o que é propício ao progresso das criaturas e finalidade desse progresso.
  2. •Belo (H)
    1. ◦Qualidade atribuída a objetos e realidades naturais ou culturais, apreendida primordialmente através da sensibilidade (e não do intelecto), e que desperta no homem que a contempla uma satisfação, emoção ou prazer específicos, de natureza estética;
    2. ◦de elevado valor moral; sublime.
  3. •Sublime (H)
    1. ◦que apresenta inexcedível perfeição material, moral ou intelectual;
    2. ◦elevado, augusto; superlativamente belo, esteticamente perfeito;
    3. ◦o que há de mais elevado nas ações ou nos sentimentos; o máximo de perfeição ou beleza; grandiosidade, poder, força incomparável.
      1. ■Isaías 33:5 – O Senhor é sublime, pois habita nas alturas; encheu a Sião de direito e de justiça.
      2. ■Isaías 52:13 – Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado e elevado e será mui sublime.
      3. ■Isaías 57:15 – Porque assim diz o Alto, o sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos.
      4. ■Filipenses 3:8 – Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo.
  4. •Gratidão
    1. ◦Reconhecimento por um benefício recebido (Aurélio).
    2. ◦Um fenômeno racional/emocional; o sentimento de gratidão.
    3. ◦O dom da gratidão e a capacidade de agradecer (inclusive, pelo dom do reconhecimento).
    4. ◦Produz ou expressa harmonização íntima com o que Deus é e faz. Adoração
    5. ◦Expressão do coração (alma), está ligada com gratidão e muito próxima da arte, pois acontece na dimensão do sublime.
    6. ◦Do sublime para a arte, basta a capacidade de percepção e expressão emocional.
  5. •Louvor (H).
    1. ◦Elogio, baseado em fatos e em crenças;
    2. ◦objetiva o reconhecimento, a homenagem, a honraria;
    3. ◦enaltece os méritos de alguém e demonstra gratidão, agradecimento.
  6. •Arte
    1. ◦Capacidade de perceber e/ou expressar, emocionalmente, o belo; seja por mimetismo, seja por criatividade;
    2. ◦dom pelo qual o artista representa, imita, cria e recria o belo.
      1. ■Êxodo 31:6b-11 – …e dei habilidade a todos os homens hábeis, para que me façam tudo o que tenho ordenado: a tenda da congregação, e a arca do Testemunho, … eles farão tudo segundo tenho ordenado.
  7. •Inefável (H)
    1. ◦Indizível, indescritível; que não se pode nomear ou descrever em razão de sua natureza, força, beleza;
    2. ◦que causa imenso prazer; inebriante, delicioso, encantador.
    3. ◦Delicioso (H)
      1. ■Que permite fruição estética;
      2. ■que encanta por sua beleza.
  8. O comentário inicial que apresento às definições acima é que existe uma estreita interligação entre esses termos. Eles se reúnem no jardim do coração humano. Ao perceber o bem em sua forma extrema, esse coração o decodifica como sublime (que Houaiss define como “superlativamente belo, esteticamente perfeito”). Daí fazer o dicionário a ligação entre o sagrado e o sublime. E o texto bíblico chama a Deus de “o sublime” e estende o significado também ao seu Filho. Mas o sublime, muitas vezes é inefável. Ou seja, indescritível, em sua força e beleza. Então, o coração humano se extravasa em gratidão, louvor e adoração. E o faz por meio da arte. E percebe que tudo é delicioso.

3. A vida cristã na igreja, cheia do Espírito, é fortemente alimentada por manifestações singelas e espontâneas de arte, que harmoniza a adoração, o belo e a vida comunitária.

Em Ef 5:18-20, Paulo conclui suas recomendações sobre a vivência comunitária da nova sociedade que Cristo inaugurou com a recomendação de que nos enchamos do Espírito. E adianta o resultado: “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai…”

O Apóstolo está propondo um modo de vida comunitário a ser vivido cotidianamente, permanentemente — a vida normal da igreja. E esse modo de vida envolve (ou consiste em):

    1. ◦falar uns com os outros com salmos;
    2. ◦entoar, louvar de coração ao Senhor;
    3. ◦hinos e cânticos espirituais,
    4. ◦com ações de graças por tudo.
  1. Paulo insere nas relações eclesiásticas o belo, o emocional, o coração, a gratidão, como elementos normais, saudáveis, necessários à saúde espiritual da igreja. Como que a dizer que essa dimensão do coração favorece a saúde da igreja; como que a dizer que a arte, em todas as suas formas, é elemento importante na vida espiritual da igreja de seus membros.

4. Quando a palavra de Deus nos exorta, instrui, admoesta ou consola, por meio da igreja, esse processo é ungido de boas emoções (oriundas da gratidão do coração), que se materializam em expressões artísticas, tais como louvor a Deus: salmos, hinos e cânticos espirituais.

Paulo se detém a equilibrar o intelecto, a razão e as emoções, que se expressarão esteticamente.

    1. ◦Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração (Cl 3:16).
  1. Desta vez, ele explicita a necessidade do aprendizado, do conselho e da sabedoria, associados à gratidão, a cujo reino pertencem o louvor que acontece no coração; ou seja, a adoração.

O que há de comum entre as passagens de Efésios, anteriormente citada, e de Colossenses? Minha resposta seria:

1.    o coração como sede do genuíno, da adoração (“de coração”);

2.    arte, como componente da vivência da espiritualidade;

3.    louvor e gratidão, como elementos complementares, inseparáveis;

4.    a associação entre vida relacional e arte (salmos, entoando, hinos e cânticos espirituais);

5.    a indissociabilidade entre a proximidade do Sublime, a gratidão (harmonia afetiva com o Criador) e a expressão emocional (adoração, louvor, arte).

5. Só um coração grato adora a Deus com inteireza; em caso de indiferença, ressentimento ou culpa, o louvor pode perdurar por algum tempo, mas termina por reduzir-se a louvor vazio de conteúdo.

Tudo começa com um coração grato a Deus; emocionalmente harmonizado com o que ele é e faz:

    1. ◦Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis (Rm 1:21-23).
  1. A harmonia leva à adoração, ainda no âmbito do coração:
    1. ◦Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração (Dt 6:4-6).
  2. Surge, então, o louvor, seu veículo, sua manifestação. A arte, então, se manifesta, como representação externa do sublime. Se, no entanto, a harmonia desaparece, se o ressentimento surge, então, a adoração se esclerosa.
    1. ◦Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado. E orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal. Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver. E disse o Senhor: É razoável essa tua ira?
    2. ◦Então, perguntou Deus a Jonas: É razoável essa tua ira por causa da planta? Ele respondeu: É razoável a minha ira até à morte (Jn 4:9).
    3. ◦Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim (Mt 15:8).
  3. 6. Por que Deus nos proíbe de adorar ídolos, mas não usa a palavra louvor?

Porque o louvor já é exteriorização. O perigo (que contamina o homem) está no coração.

    1. ◦Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem (Ex 20:5).
    2. ◦Filho meu, atenta para as minhas palavras; aos meus ensinamentos inclina os ouvidos. … Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida (Pv 4:20-23).
    3. ◦Mas o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem (Mt 15:18).
  1. Gostaria de começar a “passar a régua” nesses pensamentos, traduzindo-os em “razões do coração”. E começo perguntando: qual é a razão que um coração tem para adorar? Minha resposta seria a gratidão, termo que englobaria todos os sentimentos que nos harmonizam com o Criador: amor, admiração, respeito, veneração, temor etc., provenientes de uma “concordância” íntima e sem reservas com tudo o que ele é e faz (apesar da dor). Usei, anteriormente, as palavras “harmonia”, “harmonização”.

Nesse mesmo diapasão, a razão para não adorar seria o ressentimento, que englobaria todos os sentimentos que nos desarmonizam com o Criador: indiferença, amargura, inconformismo, revolta, ódio, medo etc. Ocorre-me o elemento neutro, a indiferença, que também pode ser encaixada no “não lhe deram graças”, porque também são indesculpáveis.

Dessa forma, a adoração flui emocionalmente, no coração, e o louvor lhe dá razão, sentido e expressão.

7. “Entrar no quarto” é mergulhar na dimensão sublime do sagrado, onde o inefável se apresenta ao coração. Ali, as experiências da expressão, da oferta e da transformação serão vivenciadas.

    1. ◦Mateus 6:6 – Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
    2. ◦João 4:23 – Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.
  1. Quando Jesus nos recomenda a “entrar no quarto”, está nos ensinando o caminho para a experiência do sublime: o belo possível na experiência da percepção e expressão emocionais. O quarto é lugar de experiências profundas e duradouras. Eu diria estruturadoras da vida. E essas experiências, que defino como sendo expressão, oferta e transformação, em outro texto[1], hão de se constituir em matéria-prima da vida espiritual do cristão. Por conseguinte, trarão seus componentes de adoração. Fecha-se, assim, o círculo com nosso tema, pois sabemos que a adoração é em muito, uma experiência estética, pois é convívio com o Sublime e extravasamento do inefável.

A expressão é o processo pelo qual transformamos em consciência fatos, percepções, sensações, sentimentos etc, da nossa vida. Ao transformar em palavras e imagens nossas experiências cotidianas, apropriamo-nos delas. E, no quarto, o processo se reveste da dimensão do sagrado, da presença de Deus.

A oferta é o momento em que nos posicionamos a respeito. É o momento do “eu” se apresentar. E a transformação é o que decorre desse momento na presença de Deus. É a dimensão do milagre. Resumo tudo em um único verso bíblico.

    1. ◦Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração. Serei achado de vós, diz o Senhor, e farei mudar a vossa sorte; congregar-vos-ei de todas as nações e de todos os lugares para onde vos lancei, diz o Senhor, e tornarei a trazer-vos ao lugar donde vos mandei para o exílio (Jr 29:13-14).
  1. Conclusão

Concluo reapresentando minha tese inicial, agora com uma redação devocional.

Aprouve ao Criador que o coração humano fosse capaz de traduzir o bem em belo e, assim, pudesse adorá-lo também por meio da arte. Por isso, quando entramos no quarto para apresentar-lhe nossos corações, em louvor e ações de graças, colocamo-nos na iminência de vivenciar a experiência mais emocionante que um filho da Adão pode suportar: a percepção da presença inefável e amorosa do Sublime. Nesse momento, compreensivelmente, nosso cálice transborda.

[1] Ver meu livro: Louvor, Adoração e Liturgia, Viçosa, Ultimato.

Em 2008, vou romper com a síndrome do divã. Vou me aconselhar como quem deseja ouvir e crescer.

Nessa última novela da Globo (Eterna Magia), toda construída sobre mentiras e segredos, chamou-me a atenção uma cena em que, após longa conversa com um padre, a pessoa termina dizendo: “obrigado por me ouvir; eu estava precisando botar para fora”.

Notei que, tanto nesse caso quanto nos demais, o padre nunca era atendido ou considerado em seus conselhos. Era apenas um ouvinte disponível, paciente e que fazia boas perguntas. Era assim que ajudava as pessoas. Mas ficou claro, no enredo, que, se o tivessem ouvido, o rumo daquelas vidas teria sido diferente. Para melhor. E a novela teria terminado precocemente, claro.

Passei a prestar mais atenção às minhas conversas, seja como conselheiro, seja como consulente. E constatei que sofremos todos desse subproduto indesejado da cultura psicanalítica em que vivemos. Nada contra os psicanalistas, claro. O problema atinge também a quem nunca se deitou num divã. Meu olhar é sobre o aconselhamento cristão.

Parece que temos carência de falar. Dizer já não é tão importante. Ouvir, muito menos. Obedecer, bem, de que baú, tiraram esse verbo?

Nesse sentido, embora algo de consolador e terapêutico permaneça nesses monólogos disfarçados de aconselhamento, percebo que muitos elementos cristãos estão desaparecendo. Por exemplo, a autoridade. Nessas conversas, não se busca, de fato, a sabedoria ou a experiência do conselheiro. Claro que desejamos um interlocutor preparado. Mas o que queremos é uma vaga em sua agenda. Em especial, em seus ouvidos. Quanto mais tempo, melhor.

Desaparece, também, a submissão. Submeter-se a um amigo, um irmão? Que também tem seus problemas? Ouvi dizer que é melhor procurar alguém que não nos conheça bem — traz menos problemas.

Desaparece a autoridade e o poder coercitivo das escrituras. Liquefazem-se princípios, verdades, certezas, tradições e outros fatores de segurança que o texto bíblico traz. Abrir a Bíblia, em um aconselhamento, hoje em dia, já não é tão fácil. Além de interromper o fluxo do raciocínio daquele que está ali para falar, pode trazer constrangimento. Falta disposição para ouvir conselhos. Ou para versos bíblicos, com aplicações “discutíveis”. Se insistir, o conselheiro perde muitos pontos.

Sim, pastores, mentores e conselheiros têm sido reduzidos a ouvintes privilegiados. E serão tão menos procurados quanto menos disponíveis estiverem para uma audição “gentil”.

Este ano, desejo mudar. Falarei menos e aprenderei mais. Ouvirei conselhos e procurarei acatá-los. Investirei em docilidade. Até no caso de meu conselheiro me reprovar ou me apontar caminhos difíceis. Serei submisso; serei grato; buscarei a obediência inteligente. Aceitarei autoridade sobre mim e a honrarei; orarei por ela. Serei, novamente, “admoestável”.

Quem sabe, a partir desse exercício, em oração, a Bíblia, que há tanto tempo me tem falado palavras bonitas, volte a me dizer o que preciso ouvir. E ouvindo o que preciso ouvir (e não apenas o que eu mesmo falo), eu me cure desta insidiosa anorexia espiritual. Amém.

Está chegando o Natal. Não sei explicar por que essa época me deixa nostálgico. Um sentimento ao mesmo tempo doce e dolorido. Parecido com a saudade, que dói porque é lembrança boa. Mas dói. Porque já não é.

Parece que faz tanto tempo que ele veio! Um menino destinado a virar o mundo de cabeça para baixo. Um homem obstinadamente decidido a morrer. Mas não uma morte qualquer. Nem mesmo martírio. Ele só se entregaria aos seus algozes para consumar o que dele diziam as escrituras. E assim foi. E sua figura, naquela cruz infame, avultou e agigantou-se como a conjugação, inconcebível, da justiça com a misericórdia de Deus. Nele se realizava o que até então fora somente esperança. E pelas suas pisaduras fomos sarados.

Parece que faz tanto tempo que cremos nele. Como se a magia do Natal tivesse cedido seu brilho para os shoppings reluzentes, para a compra dos presentes, para a preparação das festas, dos cultos; para o ensaio do coral, da encenação a ser apresentada no dia 24. Como se “o verdadeiro sentido do Natal” tivesse ficado nos melosos filmes Disney que assistimos tantas vezes na tv, nessa época. Com direito a trenó, renas e duendes. Como se Natal fosse coisa da nossa infância.

Eu acho um tempo bom. Nostálgico.

Tempo de introspecção, também. Parece que já não conseguimos nos relacionar tão afetiva e pessoalmente com aquele Jesus com quem tivemos um encontro íntimo, pessoal, profundo, transformador, insofismável, inesquecível. Aquele que recebemos exultantes em nosso coração e que se transformou em nascente de rio, em fonte de energia, em razão de viver, em segurança emocional, em ministério pessoal etc. a contaminar tudo e todos à nossa volta. Aquele que nos levou para o exílio e nos fez estrangeiros em nossa própria terra, mas que, ao mesmo tempo, nos trouxe para perto, para sua família.

O que terá acontecido? Por que esse sentimento de solidão nostálgica? Por que me sinto como o último ingênuo, que não percebeu ainda que “Papai Noel não existe”?

Será que, por pena, ninguém me contou que crescemos como civilização e que essas coisas pueris já não cabem em nossa madura cultura tecnológica? Que a pós-modernidade é também pós-cristã? Que o Natal não deve ligar-se ao Jesus bíblico, para não discriminar os (consumidores) que não crêem nele? Que, por isso, devemos usar a expressão Christmas Seasons (festas de fim-de-ano), politicamente mais correta, de modo a incluir aqueles que não crêem em Jesus?

Ou será que estou sentindo uma presença nova no mundo, prestes ser manifestada? Um novo avatar que encerrará a era de peixes para inaugurar a regência de aquários? Um usurpador, decidido a transformar em saudosas lembranças nossas mais sólidas convicções? Estarei pressentindo o “homem da iniqüidade” já entre nós? Aquele que “se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus” (2Ts 2: 3,4)? Tenha Deus misericórdia de nós. Em especial, de nossos filhos e netos. Que a eles seja dada a unção necessária para enfrentar a Besta e sustentar o testemunho de Jesus.