Procurou-me, recentemente, um jovem irmão, inconformado com sua sorte. Crente novo, esforçado e ávido por crescimento espiritual, não conseguia entender a razão por que Deus não o abençoava muito com bens materiais.

Servidor público, esposa por conta dos filhos pequenos, trabalhando de dia e estudando de noite, ele levava uma vida dura, mas não era exatamente um necessitado. Achava, no entanto, que, comparativamente a outros irmãos “na mesma faixa”, estava sendo deixado para trás por Deus.

Perguntei-lhe por que pensava assim. E ele apontou alguns amigos comuns. Um lhe dissera que estava comprando um carro novo, enquanto o seu já estava bem batido; outro dera entrada no apartamento da família, e ele ainda morava de aluguel; outro ainda, estava chegando de viagem ao exterior, com toda a família, para aproveitar o dólar barato, coisa que ele nem podia considerar, por enquanto. Disse que podia citar muitos outros exemplos.

Fiquei pensando na frustração do irmão. No momento, disse-lhe que não devia se comparar com seus irmãos, pois as circunstâncias de vida eram diferentes. Que confiasse na justiça e no amor do Pai. Mas ele me respondeu: “o que custa a Deus me dar também um pouquinho de seu ouro e de sua prata?” Não pude deixar de notar uma pontinha de inveja e inconformismo.

Fiquei com a perplexidade do irmão no coração. Passei, então, a observar mais de perto os exemplos que ele apresentara, pedindo a Deus que me ajudasse a discernir esse cenário.

Tenho aprendido, desde então, que é tarefa elevada demais, tanto para o irmão quanto para mim, buscar uma resposta para essas diferenças. Se Deus dá cinco talentos a um, dois a outro, e ao terceiro um, “segundo a sua própria capacidade” (Mt 25,15), que posso dizer? E isso apaziguou meu coração. Deus sabe!

No entanto, não foi de todo infrutífera a observação sistemática dos “exemplos de sucesso”. Descobri que o que comprara o carro luxuoso tivera ajuda do sogro, que desejava ajudar à filha e não a ele. O que financiara um apartamento contraíra uma dívida de 25 anos, no limite de sua capacidade máxima de endividamento, e dera de entrada o carro que a esposa trouxera para o casamento, passando a família a andar de ônibus e metrô. O que viajara a Disney, levara crianças pequenas demais para apreciar a viagem e ainda se endividara por 12 meses, período este em que “não poderia nem pensar em ofertas à igreja”.

Essa última observação me pareceu gratuita, a princípio, mas levou-me de volta ao irmão frustrado para perguntar-lhe como entendia a questão de dízimos e ofertas. E ele me disse que isso era “acordo fechado” na vida do casal: “primeiro o Senhor; depois as despesas”. Surpreso e curioso, voltei aos nossos “abençoados”, e descobri que só ofertavam “quando a situação permitia”. Ou seja, raramente. Que contraste!

Conclusão, mesmo sem respostas finais, já tenho uma pergunta a fazer ao irmãozinho: será realmente abençoada uma alma incapaz de dar? Será bênção um presente ao qual me apegarei de tal modo que se tornará meu algoz? Será bênção um bem capaz de me afastar de meus ideais, da minha fé? Será bênção algo que digo vir do Senhor, mas que, imediatamente me faz proprietário dele? Incapaz de olhar para os lados, de compartilhar com o necessitado porque nunca há o suficiente? Será abençoado o rico incapaz de ofertar ao Senhor? Será que esses bens são, realmente, bênçãos? “Melhor é o pouco, havendo o temor do Senhor, do que grande tesouro onde há inquietação” (Pv 15,16).

Em sua edição de julho de 2006, a revista Valor Econômico Online publicou o artigo “Vida afetiva versus profissional: é diferente para a mulher?”, assinado por Betânia Tanure, da Fundação Dom Cabral. Nesse artigo, a professora comenta sua pesquisa sobre “as felicidades e infelicidades dos executivos”, detendo-se sobre o universo das relações afetivas das mulheres executivas.

Uma das revelações dessa pesquisa “é que os homens encontram dificuldades em aceitar mulheres ‘poderosas’, que não dependam deles”. Outra é que “a executiva tem de enfrentar mais barreiras do que seu colega para encetar uma parceria amorosa estável ou manter um relacionamento”. Os dados mostram que “há quase três vezes mais mulheres solitárias do que homens na mesma situação. Entre as pesquisadas, 36% estavam separadas, solteiras ou viúvas, enquanto a proporção de homens sozinhos era de apenas 13%. Muitas dessas executivas confessaram-se insatisfeitas por não encontrar parceiros estáveis, especialmente aquelas que sentem a pressão do relógio biológico. Algumas mulheres que já passaram da fase convencionalmente reservada à maternidade hoje lamentam a opção feita. Essa cruel escolha não tem o mesmo efeito nos homens. Entre eles o peso da idade é menor no que diz respeito à paternidade”.

As executivas casadas são quase unânimes em dizer que a necessidade de dar atenção aos filhos acaba por prejudicar suas relações com os maridos, que se sentem preteridos. Mais que isso, elas dizem que os homens não gostam de dividir igualitariamente as responsabilidades domésticas, mesmo quando a maior fatia da renda familiar venha delas. Ao mesmo tempo, um número expressivo dessas executivas provedoras submete-se totalmente às decisões dos maridos na elaboração do orçamento doméstico. Tanure comenta que os depoimentos dessas “amélias modernas” revelam que o preconceito está muito arraigado nas próprias mulheres.

O paradoxo revelado pela pesquisa é que “apesar da solidão e dos tormentos, a grande maioria das executivas continua apostando na carreira. Elas sentem prazer no que fazem e obtêm sucesso ao encarar os desafios empresariais”.

O comentário final da articulista, diante do paradoxo, é triste: “Essas mulheres atingiram a felicidade de ser mais livres, mais capazes de escrever seus próprios destinos, mais donas das suas decisões. Ao mesmo tempo, entretanto, encontram sérias dificuldades quando tentam exercer essa liberdade nas relações afetivas”.

Confesso que, ao deparar com essa difícil realidade vivida pelas mulheres executivas, tenho a tendência de disfarçar meu preconceito em misericórdia e sugerir a elas que voltem para casa — e sejam felizes. Mas sei que essa “nova mulher” veio para ficar. Então, que fazer?

A resposta que encontro é o resgate do ensino de Ef 5, 21-32, trazendo-o para este cenário moderno. Sim, como seria a vida dessas executivas solitárias se, ao voltar do trabalho, encontrassem em casa maridos empenhados em amar suas mulheres “como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5, 25)? Só saberemos se tentarmos — em oração.

O recém-criado Instituto Internacional do Perdão, em Madison, Wisconsin, EUA, chama atenção pelo nome. Um de seus objetivos é levar às crianças de escolas públicas de Belfast, Irlanda do Norte, o resultado de anos de pesquisa sobre a terapia do perdão. “Treinamos os professores e eles entregaram a formação às crianças”, diz o psicólogo Dr. Robert Enright, criador do Instituto e autor do livro: Ajudando os Clientes a Perdoar: Um Guia Empírico para Resolver a Ira e Restaurar a Esperança (APA Books, 2000).
Em entrevista ao jornal eletrônico Zenit (zenit.org), Dr. Enright diz que o trabalho em Belfast busca ajudar aquela cidade marcada pela guerra. Ele espera que as crianças, através dos anos, tornem-se doadoras de perdão. “Este ano, vamos à quinta série, no próximo ano ao segundo grau. Descobrimos que crianças pequenas … podem aprender sobre o perdão e então fazer reduzir a raiva excessiva”, diz ele. “A esperança é que, armados com essa profunda compreensão do perdão, elas como adultas forjarão uma paz mais satisfatória em suas comunidades que a que têm hoje”, conclui.
Acho interessante a perspectiva de um perdão que alcance gerações. Em especial, em áreas de guerra ou nos guetos. Dr. Enright ensina que as pessoas levam para o casamento feridas e iras profundas; muitas delas recebidas de seus pais. E as passarão para seus filhos, se não tiverem ajuda.
As técnicas terapêuticas envolvem uma lenta e cuidadosa progressão em direção ao “perdão cognitivo”, que começa com pensamentos de perdão e declarações positivas em direção ao agressor. “A pessoa neste ponto não precisa de aproximação ao ofensor, mas fazer esse perdão cognitivo consigo mesma”, diz Enright.
“Não é um processo fácil”, diz o entrevistado. “Seguir o perdão cognitivo é perdão emocional, a abertura de si mesmo à compaixão e ao amor para com aquele que o feriu. Isso é difícil e pode levar tempo. Algumas pessoas em terapia não estão prontas para esse passo e isso deve ser honrado. Ainda é um mistério para nós como tal compaixão cresce no coração humano para com as pessoas que [lhe] foram e são profundamente injustas. Certamente a graça de Deus é operante aqui, mas nós como cientistas não temos a linguagem para descrever isso completamente. A ciência é limitada como são todas nossas tentativas humanas de entender os mistérios”.
Mistérios, de fato! Fico animado, no entanto, em saber que se estejam buscando caminhos terapêuticos para trabalhar com esse mistério, em particular. Vejo a ciência e a fé caminhando juntas em direção ao alvo perfeito: a reconciliação.
E pensar que nós cristãos sabemos tão pouco sobre esse tema central do evangelho. Mistério para nós também. Quando muito, compreendemos que devemos orar pelos nossos ofensores, em vez de amaldiçoá-los. É uma forma de buscar o “perdão cognitivo”. Mas precisamos aprender a dar passos certos na direção da cura de nossas próprias almas. Porque perdão retido transforma-se em verdugo e algoz. É hora de aprendermos a discernir, praticamente, a ordem de Jesus: “Deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta”. Mt 5,24.

Às vezes não consigo entender certos conceitos de justiça e lealdade que surgem e se consolidam em setores de nossa sociedade. Digo setores porque há grupos muito específicos ligados a tipos específicos de preocupações. Vou dar um exemplo.
Tive um amigo que gostava muito de caçar. Desses desportistas fanáticos, que compram várias armas, assinam revistas, freqüentam clubes etc. Não sei como o assunto surgiu, mas, de repente, estávamos falando sobre a ética envolvida na caça, e eu perguntava:
— Que ética existe na caça por esporte?
— A gente tem regras — respondia ele. — O animal sempre tem que ter uma chance de escapar.
— Mas como, regras? — indaguei. — Você está com um trabuco. E o passarinho, vai lhe enfrentar com o quê?
— Não, ele não vai me enfrentar; ele pode fugir — respondeu o caçador.
— E esse assobio especial? Para que serve?
— Eu uso o assobio para chamar o pato. Quando ele atende, mando chumbo.
Fiquei muito irritado com o conceito de ética daquele rapaz. Acabei estragando a conversa, com a seguinte sugestão:
— Por que você não entra numa floresta, de noite, com dez facas nas mãos, e sai à caça de um tigre? Ele com dez unhas e você com dez facas. Sem assobios, trinados, nem nada. Não lhe parece mais justo?
E ele ficou me olhando com aquele olhar que diz: você está “apelando”.

De Volta ao Útero
Uma outra área onde a ética é bem específica, e bem consolidada dentro de um grupo, é a área do aborto. As pessoas favoráveis ao aborto formam um grupo sólido e grande; gente estudiosa e militante, politicamente falando. Gostam de se reunir, como os caçadores, e de falar e planejar atividades.
Aí está outro tema cuja ética não consigo entender. É uma espécie de campo minado, porque envolve muita emoção, e, em muitos casos, a própria vida da mãe. Por isso, quero lhe sugerir uma ótica específica; bíblica, em sua essência. A ótica do oprimido, da vítima. Coloque-se comigo no lugar da caça, digo, do nenezinho que vai nascer. Vamos visitar as grandes discussões sobre este tema, olhando a situação do lado do nenê. Você é o bebê. Vamos?
Primeira semana: o óvulo fecundado entra no útero da sua mãe. Uma nova vida começa a se desenvolver. Você já é um ser vivo! Não se sabe muito a respeito desse estágio de vida. Muitos teólogos acreditam que você já tem o espírito dado por Deus. Já é uma alminha vivente. Portanto, já é alvo da ternura paternal de Deus, e pode, já, começar a receber o amor de sua mãe e de seu pai, se eles pressentirem sua presença. Você pode, sem saber, estar sendo festejado com dança e com choro. Com champanhe ou com silêncio misterioso.
Segunda semana: Com apenas quatorze dias, já está umbilicalmente ligado à sua mãe e começa a receber alimento materno. Você está sendo nutrido por ela. Isso é muito forte para os dois. Uma relação vital, de profundas implicações psicológicas e emocionais se estabelece. Sua mãe, inclusive, pode estar experimentando sentimentos, sensações e uma consciência que de alguma forma se relacionam com o ato divino da criação. Imagine! Um entezinho sendo formado dentro dela! Pode ser que ela não esteja gostando disso. Mas ainda assim, a experiência é fortíssima e inesquecível.
Da primeira à quarta semana aparecem os seus olhos, sua coluna vertebral, seu cérebro, seus pulmões, o estômago, o fígado e os rins. Neste período, seu coraçãozinho começa a bater! Normalmente sua mãe ainda não sabe de você. Distraída, ela espera pela menstruação mensal. Mas se ela sabe, e vai ao médico, ele poderá sentir, por meio de instrumentos supersensíveis, o seu pulsar, e dizer se está tudo bem com você. Ao final deste período, sua cabeça já está em formação; o crânio já está completo; a espinha dorsal também, e os braços e pernas já começam a aparecer, ainda sem forma definida. Você já tem jeito de gente.
Quinta semana: o seu tórax e abdômen estão formados separadamente. Seus olhos já possuem retina e visão. Os ouvidos já estão formados. Agora você já tem os braços e pernas completos. Se sua mãe ainda não sabia, agora ela já começa a desconfiar que está grávida. A menstruação já atrasou demais. Aparecem os enjôos, as tonteiras, e você já ocupa o seu lugarzinho na sua barriga. Você já tem uns 35 dias de vida.
Da sexta à oitava semana, todos os seus órgãos aparecem. A cabeça se completa. O rosto, a boca e a língua são formados. O cérebro está completo. O que será que você anda pensando? Que grande mistério. Você já responde a cócegas. Você tem todos os dedos das mãos e dos pés — até mesmo impressões digitais, que serão as mesmas de quando você tiver 80 anos.
Da décima à décima-primeira semana, todos os sistemas do seu corpo são colocados em funcionamento. Os nervos e os músculos estão sincronizados. Os braços e as pernas movem-se. As unhas estão aparecendo. Você já possui um peso considerável.
Três meses: Você andou rápido. Já está prontinho, formado. Agora, você só tem que crescer. Mas o que você não sabe (será que não sabe? Será que sua proximidade da mãe não lhe permite “sentir” o que se passa no interior de sua mãe?) é que sua mãe e o médico, ou, quem sabe, uma parteira do bairro, já estão combinando como matá-lo. Discutem se será:

  1. •pelo método de sucção, no qual você sairá aos pedacinhos;
  2. •pelo método da curetagem, que o cortará em pedaços dentro da mãe, para depois ser tirado;
  3. •pelo método cirúrgico, no qual você é retirado inteiro, para depois morrer, ou
  4. •pelo envenenamento salino, quando uma solução salina é injetada na bolsa aminiótica, e você morre cauterizado.

Pode ser por algum outro método. Todo dia alguém inventa um jeito novo.
E eu fico me perguntando se a ética dessas decisões não são mais ou menos parecidas com a do caçador, que diz que dá chance de escapar à caça.

Balanço
Você sabia que este tipo de caçada:

  1. •mata mais pessoas que o câncer;
  2. •mata mais pessoas que todas as guerras até hoje;
  3. •mata mais que o trânsito;
  4. •mata entre 4 e 12 milhões de crianças por ano1, dos quais 400 mil resultam em morte da mãe?
  5. •faz do Brasil o campeão mundial de abortos?

Caçador ou Predador?
Talvez seja leal da nossa parte informá-lo sobre os dramas e motivos de sua mãe, ao querer matá-lo. Aliás, ela diria que não está matando ninguém. Há uma diferença, entre abortar e matar. Abortar é, simplesmente, uma forma de se livrar de uma gravidez incômoda ou indesejada, ou de alto risco. O uso da expressão “matar” — argumentaria ela — é uma radicalização daqueles que são contra, por motivos religiosos, políticos, moralistas, filosóficos etc.
Então, eu pergunto a você, leitorzinho, que está aí dentro da barriga da mamãe: que nome você daria? Também acha que tudo se resume num problema de semântica? De nomenclatura? De palavreado? Com a palavra, o feto: você.
É de justiça, também, lembrar que nunca essas decisões são fáceis e indolores para sua mãe. Ela também enfrenta uma situação de grande angústia e sofrimento. Na grande maioria dos casos, carregará essa culpa pelo resto da vida. Talvez por isso, queira lhe dar essas explicações.
O primeiro motivo de sua mãe, pode ser o de que não tenha condições de criá-lo. Não tem condições econômicas. Uma mãe pobre, já no décimo filho. Você é o goleiro do time. E você vai morrer por isso. Qualquer dia desses, uma “amiga” da sua mãe virá visitá-la, com umas agulhas de costura bem compridas e outras ferramentas…
Pode ser que ela não tenha condições de criá-lo, também, porque engravidou jovem demais. Transou sem preservativo, ou, não se sabe porque, mesmo com ele, engravidou. Dez por cento das mulheres que engravidam, estavam “protegidas” por anticoncepcional2. De acordo com o IBGE, 1 milhão de garotas3 engravidam por ano no Brasil.
Neste caso, você veio a estar nesta situação porque sua mãe é uma pessoa liberal, sem essas “encanações” dos mais velhos. Acha que essas histórias de virgindade, castidade, são coisas de matusalém. E seu pai concorda (para cada aborto no mundo, há um homem co-responsável). Sexo tem que ser livre. Contanto que haja amor. E assim entrou para a estatística das mais espertas e desencanadas adolescentes do ano. Competindo apenas com mais 999.999 colegas brasileiras. Um exército de garotas, acompanhadas por um exército de garotos, que acham que sabem muito bem o que estão fazendo. Por causa disto, você vai morrer. Infelizmente, ela não vai querer parar de brincar agora, tão cedo.” É muita responsabilidade para assumir agora: preciso viver, estudar, passear etc.”.
O segundo motivo que sua mãe poderá lhe apresentar, para ver se você a perdoa pelo que vai fazer, é que você, se chegasse a nascer, seria odiado. Você é resultado de um estupro. Neste caso, inclusive, a lei concorda com sua morte. O raciocínio é mais ou menos o seguinte: há casos em que o nascimento é pior que o aborto; e um deles, é ter que carregar, a vida toda, o peso de ser um peso. Ser rejeitado e não-amado desde a concepção. Você não teria um parto — seria simplesmente expelido. Se nascesse, você não teria o colinho da mamãe, nem seu leite, nem ouviria sua voz cantando cantigas de dormir. Seria visto como um monstro. Resultado de uma monstruosidade sofrida por sua mãe.
Você, que a estas alturas já tem o cérebro formado, pode estar se perguntando: mas por que ela tem que me rejeitar? Não poderia tentar me amar? Ao menos como um inimigo, conforme prescrevem as Escrituras? Ela não poderia, em resposta ao que sofreu, me dar a vida? Gostar de mim?
Meu irmãozinho, se você chegasse a nascer, compreenderia como é complicado o coração humano. Esse tipo de “volta por cima” que você está sugerindo só acontece por milagre. Algumas vezes acontece. Se sua mãe tiver aprendido alguma coisa sobre adoção, a adoção de Deus, o amor paternal dele, seu sacrifício na cruz, então, talvez você tenha alguma chance. Mas não espere muito por isso.
O terceiro motivo é bem mais sério (algum aqui não é?): sua mãe — e o médico — tem que escolher entre você e ela. Gravidez de risco. Se você nascer, ela pode morrer. E a probabilidade de que morram os dois é grande. Uma variante desse motivo é que você está sendo mal formado por problemas com sua mãe ou com a gravidez. Vai nascer com muitos problemas, se o pior não acontecer. E isso tem que ser resolvido agora, enquanto você está bem pequenino. A lei garante à sua mãe o direito de correr o risco de ir com você até o fim. Há casos em que crianças no seu estado nasceram saudáveis, e a mãe sobreviveu. Mas o que você sugere? Vamos tirá-lo? Acha que recusar-se a “cooperar” é muito egoísmo de sua parte?

Adeus, irmãozinho
Irmãozinho, agora que você já sabe porque vai morrer, o que acha da idéia? Que acha dos motivos apresentados por seus pais?
Certamente, estará se perguntando: — Será que eu também seria assim, se chegasse a nascer? Será que cresceria e teria essa cabeça doida? Esses valores tão confusos? Será que eu também tentaria convencer meu filhinho do injustificável? Será que eu também jogaria sobre ele todo o peso de uma sociedade que brinca com a vida — e com a morte? Será que valeria a pena nascer numa sociedade assim?
O fato, irmãozinho, é que essas coisas chegaram ao ponto em que estão, porque temos nos perdido nos caminhos da vida. Originalmente, Deus não nos fez assim. Mas isso não é de hoje. No Brasil, em particular, onde você foi concebido, somos campeões mundiais em muitas coisas. Se você nascesse, entenderia o que é ser um “tetra”. Mas saberia também que somos o povo mais esperto do mundo.
Para não fugir do nosso assunto — seu destino —, somos campeões mundiais da sensualidade. Nossas mulatas e “loirudas” fazem sucesso no mundo inteiro, mostrando esse seu “dom”. Nossos meios de comunicação de massa alardeiam a todos os ventos nossa irreverência e sensualidade como sedimentada identidade nacional. Estilo de vida, entende? Somos “quentes”, somos livres, somos ótimos. Venha para o Brasil. Aqui, tudo pode acontecer (abaixo do Equador e debaixo do cobertor). Quer vender um livro? Uma geladeira? Um amortecedor de carro? Coloca uma mulher bem sensual, insinuante, dessas bem brasileiras, que só dizem “sim” (incrível, que tantas mulheres aceitem ser vistas e tratadas assim, em plena luta por igualdade). Quer fazer um cinema encher? Diga que o filme é sensual e irreverente. Quer ser um cara simpático e legal? Diga que vive sob o signo descontraído e fálico do “Casseta e Planeta”. Todos vão dar um risinho “cult” e conivente. Você é impossível, mesmo.
Temos tido muita certeza sobre como conduzir nossas relações amorosas e sexuais; temos tido muita certeza sobre o que é “careta” e o que não é; estamos superseguros sobre “o que é bom para mim e os outros que se danem”; sabemos tudo sobre o uso do nosso corpo — sem essa de promiscuidade; sabemos tudo sobre família, casamento, profissão, lazer, uso de dinheiro, bebidas etc. Sempre orientados e tutelados por uma mídia absolutamente sem limites, sem horários, sem vergonha, sem caráter e sem patriotismo.
Mas a quê nos tem levado toda essa displicente arrogância nacional? Bem, é uma longa história, irmãozinho; um dia a gente conversa sobre isso. Mas uma coisa podemos dizer. Este ano, novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove irmãozinhos seus vão ser assassinados por suas próprias mães. E o milionésimo, infelizmente, será você.

Notas
1 A incrível imprecisão dos números está relacionada ao fato de que são quase impossíveis as estatísticas a esse respeito. A grande maioria dos abortos é feita escondida, longe dos hospitais.
2 O Relatório de 1983 do Departamento de Saúde de Minnesota, EUA, diz que 48,8% das garotas entre 15 e 17 anos que tiveram abortos, sabiam sobre métodos anticoncepcionais e os usavam (irregularmente). Outros 9,7% estavam usando anticoncepcionais quando engravidaram.
3 Entre 14 e 17 anos de idade.

A missão daquele que ensina é ser fiel à Palavra. Mesmo que ela se volte contra ele ou agrida aos seus alunos. Esse pensamento é apropriado à abordagem de Efésios 5, 21-33, pois ele traz um tema “politicamente incorreto” para os dias de hoje.

De um pensamento para outro, damo-nos conta de que, por motivos diferentes, o texto também era de difícil assimilação quando foi escrito. Como teria feito o Espírito Santo para contornar toda a formação, todo o ambiente, toda a sociedade machista do Apóstolo Paulo? Que meios teria usado Deus para evitar que o próprio Apóstolo falasse de si mesmo e do seu tempo, negando a gerações longínquas uma palavra imutável, equilibrada, e despida de roupagens locais?

Bem, gostaria de compartilhar minhas reflexões a respeito. Encontrei dois tipos de resposta, para a compreensão da passagem. No primeiro, a luz provém do entendimento da estrutura do texto; no segundo, da forma como o assunto é exposto. Eu explico.

Luz a Partir da Estrutura

A primeira coisa a se notar nesta passagem, é que ela faz parte de um texto maior: não está isolada. Há um contexto. Que contexto é esse?

Como na maioria das cartas de Paulo, há uma separação do argumento em duas partes, que poderíamos chamar de:

a) a iniciativa de Deus;
b) a resposta humana.

Na carta aos Efésios, essa divisão é equilibrada: divide o livro em dois segmentos de 3 capítulos. Nos capítulos 1 a 3, o Apóstolo narra o processo pelo qual Deus, tendo-nos criado para sua glória e louvor, e encontrando-nos mortos em nossos pecados, deu-nos vida através de Cristo, seu Filho. Nos capítulos 4 a 6, ele admoesta a igreja a viver de acordo com essa verdade. Veja como ele inicia o capítulo 4:

“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados”. (Efésios 4:1)

Esse “pois” nos dá uma clara idéia de que ele inicia um longo argumento de aplicação.
Pois bem: que recomendações faz o Apóstolo? Recomenda-nos que andemos de forma coerente com a nossa vocação. E começa a estabelecer uma série de padrões de santidade, a serem alcançados pela igreja. São recomendações gerais, aplicáveis a toda a igreja; a todos os crentes, sejam homens, sejam mulheres, sejam moços, sejam moças. Aplicam-se a solteiros, casados, viúvos, pais, filhos, empregados, patrões, etc.

Repare, no entanto, que a grande maioria das recomendações são de caráter relacional; destinam-se a regular as relações  entre os membros da igreja. Fala de mentira, de ira, de roubo, linguajar impróprio, cobiça, gritaria, avareza, e tantas outras coisas que somente se aplicam a uma pessoa quando em relação a outras. Não teriam o menor sentido, se não houvesse os outros.
E aqui vem a nossa primeira lição: uma recomendação que se aplica às relações entre dois irmãos, não se aplicaria, com muito maior motivo a um casal? Por que um irmão deveria não mentir a outro, mas poderia fazê-lo ao seu cônjuge? Por que um presbítero deveria tratar com paciência uma irmãzinha da igreja e não com sua esposa?

Ora, se o argumento acima está correto, então, o verso 21 aplica-se ao casamento, com toda a sua força.

Temos a tendência de começar a nossa exegese pelo verso 22, achando que o texto anterior é outra coisa, é “geral”. Mas mesmo que fosse, muito mais motivos teria para aplicar-se às relações familiares.

E o que este texto diz? Diz que as pessoas devem se sujeitar umas às outras no temor de Cristo. Por temor a Cristo — ou, como se fosse a Cristo —, o pastor se sujeita ao irmão; o líder ao liderado; o marido à esposa e esta ao marido. O pai trata o filho adolescente como irmão em Cristo, e vice-versa.

Aí está o primeiro tipo de resposta: na condução da estrutura do texto, Deus providencia para que Paulo fale Sua palavra e não a dele, ou a de sua sociedade. Agora, vamos ao segundo tipo de resposta, aquela que provém da análise do texto, propriamente dito.

Os Sete “Como”

— Mas vai virar uma bagunça, se eu não puder exercer minha autoridade! — dirá o marido indignado. — Afinal, o verso 23 diz que eu sou o cabeça!

Realmente, é isso que o verso diz. Mas, para que essa palavra não fosse compreendida à parte de todo o contexto, e distorcida pelo interesse do mais forte — que, de resto, no Reino de Deus não é o que fala mais grosso — Deus semeou nesta passagem sete vezes a palavra “como”, que estabelece um elemento de comparação, de forma que pudéssemos compreender o que o Espírito queria dizer. Dê uma passada no texto, leitor, e marque a palavra “como”. Percebe aí um vício de estilo de Paulo? Acredito que é mais que isso: é Deus, o Editor Geral, providenciando meios pelos quais poderíamos ouvir Sua voz por detrás do linguajar, dos costumes e das restrições idelológicas do seu autor humano.

O primeiro “como” está no verso 22 e define como as mulheres devem submeter-se aos maridos: como ao Senhor. Veja que não é como o marido acha que deva ser; não é como ele manda, como e quando ele estala os dedos. Ela deve submeter-se a ele como  ela se submete ao Senhor. Se não houvesse este “como”, a passagem estaria a dizer, de modo absoluto, que as mulheres devem colocar-se sob a missão  do marido. O que já pressupõe que o marido deve ter, para o lar, uma missão. Sem missão, a submissão torna-se impossível. Aí está um assunto que merece ser melhor desenvolvido. Sem missão não há liderança efetiva!

Mas este elemento de comparação não termina aí; parte para esclarecer o lado do marido: “porque o marido é o cabeça da mulher, como  também Cristo é o cabeça da igreja…” Veja! Há parâmetros para a liderança do marido. Assim como a submissão da esposa tem um modelo, também a liderança do marido é definida pelo “como” do texto. E a definição é o exemplo do próprio Cristo.

Note, então, que a comparação toda que esses “como” estabelecem é entre as relações marido-mulher e as relações Cristo-igreja. E o apóstolo fecha esse argumento introdutório, no verso 24, dizendo que a mulher deve estar sujeita ao marido, como a igreja a Cristo.

Talvez fosse hora de parar para perguntar: “Como a igreja está sujeita a Cristo?” Se compreendermos as características dessa sujeição, saberemos mais sobre as características das relações mulher-marido. Talvez algumas palavras-chave extraídas dos múltiplos textos bíblicos que falam sobre as atitudes da igreja em relação a Cristo ajudem o leitor a iniciar sua pesquisa. Eis algumas: devoção, iniciativa, voluntariedade, fidelidade, abnegação, gozo e alegria. Nada que lembre constrangimento, contrariedade, amargura, subserviência, servilidade, rancor ou enfado. Cristo não quer um serviço forçado e mal-feito; serviço apressado, nos minutos de sobra, sem capricho, sem amor, sem atenção, sem gozo. Cristo não se propõe como um capataz que se limita a dar ordens e a punir os faltosos. Não é esse o tipo de relações que oferece. Oferece relações de amor, de responsabilidade, disciplina, iniciativa, reciprocidade. Assim, pois, deve a mulher portar-se, ao assumir a missão que, pelo marido, o Senhor designa àquele lar.

Aí está um leve bosquejo do que o texto quer dizer com os três primeiros “como”, dirigidos, primariamente às mulheres.

Agora, a Palavra se volta para os maridos, e os 4 “como” seguintes revelam a natureza de sua atitude em relação às esposas: “como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela”.

Repare que não há uma única palavra sobre poder, autoridade, domínio, direitos e prerrogativas, mas “se entregou por ela”. Fala somente de sacrifício! Para apresentá-la a si mesmo esposa gloriosa, sem mácula, nem ruga nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito (verso 27). Será que exagerei na transposição, leitor? Creio que não. Não é por meio de críticas, ameaças, pressões psicológicas ou punições que Cristo lidera sua igreja, sua noiva. Nem mesmo quando essa noiva se mostra rebelde, desorientada e infeliz. Ao contrário, ele diz que está à porta e bate. Pacientemente.

Cristo nos ensina, com sua atitude, que o verdadeiro líder não usa sua posição em benefício próprio. Ao contrário, o verdadeiro líder é o que atende às necessidades dos liderados. Ser Cabeça não é prêmio, é cargo, é função. Função que emana da cruz, com todas as suas farpas. Não é posto para ser gozado, mas missão que será cobrada.

É por isso que o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher (31). É preciso muita independência e maturidade para  tal missão. Ser “autoridade”, no sentido secular, é relativamente fácil. Até para imaturos. No sentido aqui apresentado exige fibra e desprendimento.

— Mas então, dirá você, como “funciona” esse sistema? Assim como está sendo apresentado, ele parece ter um equilíbrio tão frágil…

As relações no Reino dão-se na base do amor e da submissão voluntária. Um se submete ao outro, “como ao Senhor”. Aquele que quer ser o maior, faz-se menor e serve aos demais. E os demais dificultam essa tarefa, pois também amam ao Senhor, e também querem servir. Grande é este mistério (32)!

Este modelo, quando aplicado ao casamento, tem a função de testemunhar, nas regiões celestiais, que o projeto de Deus para o relacionamento entre suas criaturas é viável e possível, quando seu nome é invocado. O casamento, então, torna-se a vitrine do Reino, nas regiões celestiais.

Luz! Eis meu anelo para 2007. Pedirei a Deus os recomeços; as gêneses descritas em Gênesis 1, João 1 e Hebreus 1.

No princípio, era o Verbo, que irradiava existência sobre a face do abismo. Bastava a manifestação da vontade criadora e ordenadora do Espírito de Deus, que pairava sobre as águas: “Haja!” E o que antes fora trevas, terror e morte, recompunha-se em luz e vida.

E esse “Haja!” que estava no princípio e era Deus, era a luz e a vida dos homens. Sim, as vidas dos homens também se tornaram sem forma e vazias, e houve trevas sobre elas. A tal ponto que se imobilizaram em cólicas e luto; esvaziaram-se em desorientação, terror e lágrimas. Mas também sobre essas águas pairava o Espírito de Deus. E com ele, a possibilidade de uma ação restauradora de seu Verbo.

No primeiro princípio, ele não pediu licença. Atuou sobre o caos e lhe deu ordem. E a criação retomou seu curso, até à perfeição e descanso do sétimo dia. Já no segundo, ele veio para o que era seu, mas agora precisava ser recebido. O Haja de Deus esperava convite para reorganizar as vidas em trevas.

Minha pequena igreja tem experimentado o caos de uma forma sem precedentes em sua história. Em um mês e meio, sepultamos dois irmãos idosos, um jovem e uma criança.

Quando prejuízos, doenças, desemprego, acidentes, incêndios e outras perdas se sucedem como enxurradas de tsunami, como na experiência de Jó, não nos dão tempo de recuperação. Ficamos confusos e perdidos. Não sabemos como reagir aos fatos ou como ordenar nossos sentimentos. Não conseguimos “juntar os cacos”, rapidamente. Não é difícil prever que Deus será incluído em nossa perplexidade, com questionamentos que, em muito, extrapolarão nossa capacidade de compreender as respostas.

Mais que a alma enlutada, nossa vida sai do eixo. As atividades cotidianas já não são executadas com a mesma facilidade; o sol já não brilha com a mesma intensidade; as noites se tornam espessamente escuras; sentimo-nos estrangeiros em nossa própria cidade, em nosso local de trabalho. Amigos e parentes nos parecem falar por trás de uma parede de vidro. Seu abraço é exageradamente mais forte. Tristemente mais forte. E não nos importamos. Compreendemos e retribuímos, como se também quiséssemos dizer o que não é dito. Sentimo-nos invadidos por caos e solidão; o que se passa dentro de nós é incomunicável. Nem mesmo um grito de socorro encontra palavras, pois esse clamor se expressa por silêncios. Fecha-se em copas: o que tinha de ser, já foi.

Na realidade, nossa alma não encontra palavras para dizer que “a vida se tornou sem forma e vazia; que houve trevas sobre a face do abismo”.

Em momentos assim, importa trazer à lembrança que “a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo. 1:5). Se perda, morte e trevas bateram à nossa porta, vale lembrar que a vida ainda está nele, e a vida é a luz dos homens. Deus ainda pode ser convidado, das profundezas das águas, a vir e proferir seu “Haja luz!

O resultado dessa visitação do Verbo, todos sabemos: “… e houve luz; e viu Deus que a luz era boa” (Gn 1:3,4). Aleluia!

Que esse poder ordenador do Verbo reorganize os corações em minha igreja. E também o meu. Amém.

“Um dos hábitos saudáveis que as famílias modernas têm perdido é o de dedicar tempo para contar histórias para seus filhos. Menos ainda o de usar momentos íntimos, tais como refeições, finais de semana ou férias, para conversar sobre a origem, fatos pitorescos e até as dificuldades que os familiares, e seus antepassados, viveram ao longo da existência”. Esta é a opinião de Renato Bernhoeft, ao escrever para a revista Valor Econômico (8/5/2006).

No artigo intitulado Histórias da família estimulam o autodesenvolvimento, ele relata extensa pesquisa realizada pela Universidade Emory (Atlanta, EUA), que registrou e classificou as conversas de 40 famílias durante o jantar e encontrou que as histórias contadas podem ter uma influência muito maior do que se imagina na formação da auto-estima e na capacidade de aprendizado dos filhos.

Robyn Fiyush, professor responsável pela pesquisa, conclui que as famílias que contam suas histórias conseguem que seus filhos se saiam muito melhor, tanto na vida pessoal quanto profissional. É que “a história da família tem ligação direta com a auto-estima das crianças e sua capacidade de enfrentar problemas”, diz ele. E tem mais: nem sempre as melhores histórias são as que têm finais felizes. As histórias de parentes às voltas com situações tristes ou difíceis podem passar a sabedoria e a visão do que as crianças precisam para atingir realização e sucesso. As crianças que recebem esse legado familiar tendem a ganhar uma noção de identidade própria em relação a outros membros da família e ao passado, o que gera maior autoconfiança.

Diante dessas “descobertas científicas”, eu fico a pensar em nossa herança judaico-cristã, povoada de histórias. São histórias de família, sem dúvida; da nossa imensa família da fé. Histórias de heróis como Moisés e anti-heróis, como Sansão; de jovens que enfrentaram fornalhas ardentes; do pastor que, pela fé, abateu um gigante; de sábios que edificaram sua casa sobre a rocha e loucos que enterraram seus talentos. De líderes de visão, como Neemias e de filhos problemáticos, como Absalão. Quantas histórias, incorporadas ao nosso patrimônio simbólico desde tenra idade! E sacadas como luzeiros nos momentos de dúvida e indecisão.

Não é de hoje que conhecemos o poder desses relatos sobre a formação da identidade de nossos filhos. Não é de hoje que sabemos que a Bíblia não conta apenas o lado bom, os grandes feitos, mas também os erros e vícios e suas conseqüências. Não é de hoje que aprendemos a inserir nossas próprias histórias no contexto dessa nuvem de testemunhos, fazendo-nos parte dela; fazendo dela argamassa da nossa biografia pessoal.

Quando penso em quem sou, não tenho como separar todo esse legado de minha própria biografia. Em grande medida, eu sou produto dessa construção milenar. A história da família de Deus é a minha história.

Hoje, sem saber, a ciência descobre o que para nós tem sido mandato solene e imemorial: “tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te e ao levantar-te” (Dt 6,7).