Diante do convite para falar aos irmãos da Fraternidade Teológica Latino-americana (FTL-BR), que realizava consulta nacional sobre o tema “teologia e arte”, pensei em fazer uma espécie de anatomia de minha incipiente experiência pessoal, na seara da arte e adoração.

Pensando em fazer uma reflexão pessoal, evitei os livros. Com isso, corro o risco de dizer o que já foi dito, ou carecer de consistência. Paciência.

Meu propósito é encontrar em meu próprio coração um sentido, uma razão, que integre a arte e a adoração num sistema razoável (o “culto racional” do apóstolo Paulo).

Adiantando a conversa, esse sistema harmonizaria os seguintes conceitos:

    1. ◦o bem, envolvendo o Criador e a sua criação;
    2. ◦o belo, o sublime e o inefável;
    3. ◦a gratidão, adoração e culto e
    4. ◦o louvor e a arte, exteriorizações do coração.
  1. Minha tese, exposta no primeiro pensamento, a seguir, é que esses conceitos são indissociáveis na adoração. Sempre que um deles está presente, encontramos os outros, de alguma forma. E se algum deles falta, temos uma adoração deficiente. É o que encontro, olhando para minha experiência. Resta saber se é uma experiência generalizada e generalizável. Daí eu ter aproveitado uma “consulta” da FTL para apresentar o tema, com uma pergunta implícita: “isso é assim com vocês?”.

Como sabemos que as palavras (e os conceitos que elas representam) são mediadoras da realidade, ao ponto de termos nossa consciência atrelada à linguagem, a tradução de realidades internas em conceitos pode ajudar-nos a compreender as razões do nosso próprio coração. Foi esse o pressuposto que me animou a aproveitar a oportunidade para socializar questões, de forma estruturada.

Bem, o caminho adotado foi uma espécie de exploração de significados, em busca de palavras mediadoras. Uma tentativa de olhar para dentro, para meu próprio coração e, dali, retirar definições suficientemente genéricas para serem compartilhadas. Para tanto, organizo meu relatório de viagem em sete pensamentos ou proposições. Vamos a eles.

1. Aprouve ao Criador que o coração humano fosse capaz de decodificar o bem como belo e, assim, aprendesse a expressar gratidão, esteticamente.

Acredito que ao homem foi dado expressar-se afetiva, emocionalmente, “de todo o coração”. Nessa aptidão emocional reside a capacidade artística. O dom da estética. Talvez por isso, o incenso do choro e as flores do louvor exalem perfumes tão gratos a Deus, a ponto de convidá-lo a passear no meio deles.

Desenvolvo um pouco mais meus termos, pois considero esse primeiro pensamento a base para os demais.

Aprouve ao Criador — Essa capacidade provém de Deus. Na forma de dom ou talento, ele a distribui, conforme sua sabedoria e propósitos eternos. Penso que tudo começa com um Deus que implanta no coração do homem o dom da estética. Refiro-me, então, ao coração como a sede metafórica das emoções e dos afetos. A arte, a meu ver, é a capacidade de perceber e expressar o belo emocionalmente. Eis um verso bíblico esclarecedor:

    1. ◦Disse mais o Senhor a Moisés: Eis que chamei pelo nome a Bezalel… e o enchi do Espírito de Deus, de habilidade, de inteligência e de conhecimento, em todo artifício, para elaborar desenhos e trabalhar em ouro, em prata, em bronze, para lapidação de pedras de engaste, para entalho de madeira, para toda sorte de lavores” (Êx 31:1-5).
  1. Decodificar o bem como belo — Essa associação entre o bem e o belo é, a meu ver, a mais remota predisposição humana para a arte. E se todo bem provém dele, faz-se ele mesmo o bem maior, estando ele mesmo na origem do senso estético humano. Mas saliento que, por enquanto, essa predisposição se manifesta potencialmente, pois o bem e o belo ainda são externos ao homem. Nesse momento teórico, ele apenas é capaz de percebê-los, de decodificá-los e de gozá-los ou fruí-los. Veja alguns versos sobre isso:
    1. ◦Tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome; trazei oferendas e entrai nos seus átrios; adorai o Senhor na beleza da sua santidade (1 Cr 16:29).
    2. ◦Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo (Sl 27:4).
    3. ◦Naquele dia, o Renovo do Senhor será de beleza e de glória; e o fruto da terra, orgulho e adorno para os de Israel que forem salvos (Isaías 4:2).
  2. Esses versos nos levam a considerar que, se Deus é o bem maior, há de ser percebido pelo coração humano como a beleza maior, por força dessa associação inevitável. Então, sob o impacto do bem, nosso coração experimenta a estética — o belo.

Expressar gratidão esteticamente — Por que a gratidão se inclui nos processos psicológicos da estética? Porque não estamos falando de psicologia, apenas, mas também de teologia. E a gratidão aparece, a meu ver, como elemento essencial na percepção de Deus. Sem gratidão, não temos olhos para Deus. E, sem vê-lo como ele se nos apresenta, tornamo-nos esteticamente deficientes. Ao ponto de o apóstolo Paulo dividir a humanidade entre aqueles que o reconheceram como Deus e lhe deram graças e aqueles que se embruteceram, e fizeram sua arte representar aves, quadrúpedes e répteis (Rm 1:23).

Veja como o apóstolo unifica esses conceitos, em Cl 3:16b: “…louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração”. Numa só frase, ele fala de louvor, de arte, de gratidão e do coração, ao nos ensinar sobre como viver a vida normal da igreja; como vivenciar o mistério da nova e sobrenatural sociedade engendrada no coração do Pai, antes da fundação do mundo, viabilizada pelo Filho e potencializada pelo Espírito.

O coração humano tem fome e sede do bem. E só se sacia quando se alimenta de Deus, que é verdadeira comida e bebida da alma. Quando se depara com um, confunde-o com o outro, e experimenta o sublime. E tudo isso lhe causa imenso prazer; o prazer de um banquete estético. (Um pensamento divertido: eis a origem da arte culinária.)

2. Quando o bem (o belo, o sublime) e a gratidão se encontram, no jardim do coração humano, este, buscando representar o inefável, extravasa-se, emocionalmente, em adoração, culto e louvor, por meio da arte.

Quero me fixar, inicialmente, na idéia do extravasamento. A imagem que me ocorre é a de uma erupção vulcânica. Penso, também, negativamente falando, numa explosão colérica, num acesso de raiva. Diante da percepção do bem, decodificado como belo ou sublime (veja as definições adiante), o fenômeno acontece no coração e se manifesta em doçura, cores, perfumes, sons harmônicos e poesia. Um extravasamento próximo da arte. Ilustro o fenômeno com a poesia do salmista:

    1. ◦A voz do Senhor faz dar cria às corças e desnuda os bosques; e no seu templo tudo diz: glória! (Sl 29:9)
    2. ◦Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários, unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda (Sl 23:5).
    3. ◦Cantai ao Senhor um cântico novo, porque ele tem feito maravilhas; a sua destra e o seu braço santo lhe alcançaram a vitória (Sl 98:1).
    4. ◦Ó Senhor, Senhor nosso, quão magnífico em toda a terra é o teu nome! Pois expuseste nos céus a tua majestade (Sl 8:1).
  1. Imagino encontrar nesse louvor o extravasamento daquele que se depara com as obras do Senhor ou, por meio delas, contempla o próprio Deus. Não penso em uma manifestação artística, necessariamente, mas sim em sua condição emocional. Esse extravasamento não é, necessariamente estético, mas está muito próximo dele.

Talvez seja tempo de algumas definições que nos permitam perceber como certas palavras usadas se interligam no que chamei de sistema de significados. Recorro, agora, ao dicionário. Quando não encontro, defino, eu mesmo, meus termos.

  1. •Bem (H = Dicionário Houaiss)
    1. ◦tudo que leva ao aperfeiçoamento espiritual do ser humano;
    2. ◦o próprio Deus, enquanto manancial eterno e perfeito de tudo o que é propício ao progresso das criaturas e finalidade desse progresso.
  2. •Belo (H)
    1. ◦Qualidade atribuída a objetos e realidades naturais ou culturais, apreendida primordialmente através da sensibilidade (e não do intelecto), e que desperta no homem que a contempla uma satisfação, emoção ou prazer específicos, de natureza estética;
    2. ◦de elevado valor moral; sublime.
  3. •Sublime (H)
    1. ◦que apresenta inexcedível perfeição material, moral ou intelectual;
    2. ◦elevado, augusto; superlativamente belo, esteticamente perfeito;
    3. ◦o que há de mais elevado nas ações ou nos sentimentos; o máximo de perfeição ou beleza; grandiosidade, poder, força incomparável.
      1. ■Isaías 33:5 – O Senhor é sublime, pois habita nas alturas; encheu a Sião de direito e de justiça.
      2. ■Isaías 52:13 – Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado e elevado e será mui sublime.
      3. ■Isaías 57:15 – Porque assim diz o Alto, o sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos.
      4. ■Filipenses 3:8 – Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo.
  4. •Gratidão
    1. ◦Reconhecimento por um benefício recebido (Aurélio).
    2. ◦Um fenômeno racional/emocional; o sentimento de gratidão.
    3. ◦O dom da gratidão e a capacidade de agradecer (inclusive, pelo dom do reconhecimento).
    4. ◦Produz ou expressa harmonização íntima com o que Deus é e faz. Adoração
    5. ◦Expressão do coração (alma), está ligada com gratidão e muito próxima da arte, pois acontece na dimensão do sublime.
    6. ◦Do sublime para a arte, basta a capacidade de percepção e expressão emocional.
  5. •Louvor (H).
    1. ◦Elogio, baseado em fatos e em crenças;
    2. ◦objetiva o reconhecimento, a homenagem, a honraria;
    3. ◦enaltece os méritos de alguém e demonstra gratidão, agradecimento.
  6. •Arte
    1. ◦Capacidade de perceber e/ou expressar, emocionalmente, o belo; seja por mimetismo, seja por criatividade;
    2. ◦dom pelo qual o artista representa, imita, cria e recria o belo.
      1. ■Êxodo 31:6b-11 – …e dei habilidade a todos os homens hábeis, para que me façam tudo o que tenho ordenado: a tenda da congregação, e a arca do Testemunho, … eles farão tudo segundo tenho ordenado.
  7. •Inefável (H)
    1. ◦Indizível, indescritível; que não se pode nomear ou descrever em razão de sua natureza, força, beleza;
    2. ◦que causa imenso prazer; inebriante, delicioso, encantador.
    3. ◦Delicioso (H)
      1. ■Que permite fruição estética;
      2. ■que encanta por sua beleza.
  8. O comentário inicial que apresento às definições acima é que existe uma estreita interligação entre esses termos. Eles se reúnem no jardim do coração humano. Ao perceber o bem em sua forma extrema, esse coração o decodifica como sublime (que Houaiss define como “superlativamente belo, esteticamente perfeito”). Daí fazer o dicionário a ligação entre o sagrado e o sublime. E o texto bíblico chama a Deus de “o sublime” e estende o significado também ao seu Filho. Mas o sublime, muitas vezes é inefável. Ou seja, indescritível, em sua força e beleza. Então, o coração humano se extravasa em gratidão, louvor e adoração. E o faz por meio da arte. E percebe que tudo é delicioso.

3. A vida cristã na igreja, cheia do Espírito, é fortemente alimentada por manifestações singelas e espontâneas de arte, que harmoniza a adoração, o belo e a vida comunitária.

Em Ef 5:18-20, Paulo conclui suas recomendações sobre a vivência comunitária da nova sociedade que Cristo inaugurou com a recomendação de que nos enchamos do Espírito. E adianta o resultado: “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai…”

O Apóstolo está propondo um modo de vida comunitário a ser vivido cotidianamente, permanentemente — a vida normal da igreja. E esse modo de vida envolve (ou consiste em):

    1. ◦falar uns com os outros com salmos;
    2. ◦entoar, louvar de coração ao Senhor;
    3. ◦hinos e cânticos espirituais,
    4. ◦com ações de graças por tudo.
  1. Paulo insere nas relações eclesiásticas o belo, o emocional, o coração, a gratidão, como elementos normais, saudáveis, necessários à saúde espiritual da igreja. Como que a dizer que essa dimensão do coração favorece a saúde da igreja; como que a dizer que a arte, em todas as suas formas, é elemento importante na vida espiritual da igreja de seus membros.

4. Quando a palavra de Deus nos exorta, instrui, admoesta ou consola, por meio da igreja, esse processo é ungido de boas emoções (oriundas da gratidão do coração), que se materializam em expressões artísticas, tais como louvor a Deus: salmos, hinos e cânticos espirituais.

Paulo se detém a equilibrar o intelecto, a razão e as emoções, que se expressarão esteticamente.

    1. ◦Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração (Cl 3:16).
  1. Desta vez, ele explicita a necessidade do aprendizado, do conselho e da sabedoria, associados à gratidão, a cujo reino pertencem o louvor que acontece no coração; ou seja, a adoração.

O que há de comum entre as passagens de Efésios, anteriormente citada, e de Colossenses? Minha resposta seria:

1.    o coração como sede do genuíno, da adoração (“de coração”);

2.    arte, como componente da vivência da espiritualidade;

3.    louvor e gratidão, como elementos complementares, inseparáveis;

4.    a associação entre vida relacional e arte (salmos, entoando, hinos e cânticos espirituais);

5.    a indissociabilidade entre a proximidade do Sublime, a gratidão (harmonia afetiva com o Criador) e a expressão emocional (adoração, louvor, arte).

5. Só um coração grato adora a Deus com inteireza; em caso de indiferença, ressentimento ou culpa, o louvor pode perdurar por algum tempo, mas termina por reduzir-se a louvor vazio de conteúdo.

Tudo começa com um coração grato a Deus; emocionalmente harmonizado com o que ele é e faz:

    1. ◦Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis (Rm 1:21-23).
  1. A harmonia leva à adoração, ainda no âmbito do coração:
    1. ◦Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração (Dt 6:4-6).
  2. Surge, então, o louvor, seu veículo, sua manifestação. A arte, então, se manifesta, como representação externa do sublime. Se, no entanto, a harmonia desaparece, se o ressentimento surge, então, a adoração se esclerosa.
    1. ◦Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado. E orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal. Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver. E disse o Senhor: É razoável essa tua ira?
    2. ◦Então, perguntou Deus a Jonas: É razoável essa tua ira por causa da planta? Ele respondeu: É razoável a minha ira até à morte (Jn 4:9).
    3. ◦Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim (Mt 15:8).
  3. 6. Por que Deus nos proíbe de adorar ídolos, mas não usa a palavra louvor?

Porque o louvor já é exteriorização. O perigo (que contamina o homem) está no coração.

    1. ◦Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem (Ex 20:5).
    2. ◦Filho meu, atenta para as minhas palavras; aos meus ensinamentos inclina os ouvidos. … Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida (Pv 4:20-23).
    3. ◦Mas o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem (Mt 15:18).
  1. Gostaria de começar a “passar a régua” nesses pensamentos, traduzindo-os em “razões do coração”. E começo perguntando: qual é a razão que um coração tem para adorar? Minha resposta seria a gratidão, termo que englobaria todos os sentimentos que nos harmonizam com o Criador: amor, admiração, respeito, veneração, temor etc., provenientes de uma “concordância” íntima e sem reservas com tudo o que ele é e faz (apesar da dor). Usei, anteriormente, as palavras “harmonia”, “harmonização”.

Nesse mesmo diapasão, a razão para não adorar seria o ressentimento, que englobaria todos os sentimentos que nos desarmonizam com o Criador: indiferença, amargura, inconformismo, revolta, ódio, medo etc. Ocorre-me o elemento neutro, a indiferença, que também pode ser encaixada no “não lhe deram graças”, porque também são indesculpáveis.

Dessa forma, a adoração flui emocionalmente, no coração, e o louvor lhe dá razão, sentido e expressão.

7. “Entrar no quarto” é mergulhar na dimensão sublime do sagrado, onde o inefável se apresenta ao coração. Ali, as experiências da expressão, da oferta e da transformação serão vivenciadas.

    1. ◦Mateus 6:6 – Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
    2. ◦João 4:23 – Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.
  1. Quando Jesus nos recomenda a “entrar no quarto”, está nos ensinando o caminho para a experiência do sublime: o belo possível na experiência da percepção e expressão emocionais. O quarto é lugar de experiências profundas e duradouras. Eu diria estruturadoras da vida. E essas experiências, que defino como sendo expressão, oferta e transformação, em outro texto[1], hão de se constituir em matéria-prima da vida espiritual do cristão. Por conseguinte, trarão seus componentes de adoração. Fecha-se, assim, o círculo com nosso tema, pois sabemos que a adoração é em muito, uma experiência estética, pois é convívio com o Sublime e extravasamento do inefável.

A expressão é o processo pelo qual transformamos em consciência fatos, percepções, sensações, sentimentos etc, da nossa vida. Ao transformar em palavras e imagens nossas experiências cotidianas, apropriamo-nos delas. E, no quarto, o processo se reveste da dimensão do sagrado, da presença de Deus.

A oferta é o momento em que nos posicionamos a respeito. É o momento do “eu” se apresentar. E a transformação é o que decorre desse momento na presença de Deus. É a dimensão do milagre. Resumo tudo em um único verso bíblico.

    1. ◦Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração. Serei achado de vós, diz o Senhor, e farei mudar a vossa sorte; congregar-vos-ei de todas as nações e de todos os lugares para onde vos lancei, diz o Senhor, e tornarei a trazer-vos ao lugar donde vos mandei para o exílio (Jr 29:13-14).
  1. Conclusão

Concluo reapresentando minha tese inicial, agora com uma redação devocional.

Aprouve ao Criador que o coração humano fosse capaz de traduzir o bem em belo e, assim, pudesse adorá-lo também por meio da arte. Por isso, quando entramos no quarto para apresentar-lhe nossos corações, em louvor e ações de graças, colocamo-nos na iminência de vivenciar a experiência mais emocionante que um filho da Adão pode suportar: a percepção da presença inefável e amorosa do Sublime. Nesse momento, compreensivelmente, nosso cálice transborda.

[1] Ver meu livro: Louvor, Adoração e Liturgia, Viçosa, Ultimato.

Em 2008, vou romper com a síndrome do divã. Vou me aconselhar como quem deseja ouvir e crescer.

Nessa última novela da Globo (Eterna Magia), toda construída sobre mentiras e segredos, chamou-me a atenção uma cena em que, após longa conversa com um padre, a pessoa termina dizendo: “obrigado por me ouvir; eu estava precisando botar para fora”.

Notei que, tanto nesse caso quanto nos demais, o padre nunca era atendido ou considerado em seus conselhos. Era apenas um ouvinte disponível, paciente e que fazia boas perguntas. Era assim que ajudava as pessoas. Mas ficou claro, no enredo, que, se o tivessem ouvido, o rumo daquelas vidas teria sido diferente. Para melhor. E a novela teria terminado precocemente, claro.

Passei a prestar mais atenção às minhas conversas, seja como conselheiro, seja como consulente. E constatei que sofremos todos desse subproduto indesejado da cultura psicanalítica em que vivemos. Nada contra os psicanalistas, claro. O problema atinge também a quem nunca se deitou num divã. Meu olhar é sobre o aconselhamento cristão.

Parece que temos carência de falar. Dizer já não é tão importante. Ouvir, muito menos. Obedecer, bem, de que baú, tiraram esse verbo?

Nesse sentido, embora algo de consolador e terapêutico permaneça nesses monólogos disfarçados de aconselhamento, percebo que muitos elementos cristãos estão desaparecendo. Por exemplo, a autoridade. Nessas conversas, não se busca, de fato, a sabedoria ou a experiência do conselheiro. Claro que desejamos um interlocutor preparado. Mas o que queremos é uma vaga em sua agenda. Em especial, em seus ouvidos. Quanto mais tempo, melhor.

Desaparece, também, a submissão. Submeter-se a um amigo, um irmão? Que também tem seus problemas? Ouvi dizer que é melhor procurar alguém que não nos conheça bem — traz menos problemas.

Desaparece a autoridade e o poder coercitivo das escrituras. Liquefazem-se princípios, verdades, certezas, tradições e outros fatores de segurança que o texto bíblico traz. Abrir a Bíblia, em um aconselhamento, hoje em dia, já não é tão fácil. Além de interromper o fluxo do raciocínio daquele que está ali para falar, pode trazer constrangimento. Falta disposição para ouvir conselhos. Ou para versos bíblicos, com aplicações “discutíveis”. Se insistir, o conselheiro perde muitos pontos.

Sim, pastores, mentores e conselheiros têm sido reduzidos a ouvintes privilegiados. E serão tão menos procurados quanto menos disponíveis estiverem para uma audição “gentil”.

Este ano, desejo mudar. Falarei menos e aprenderei mais. Ouvirei conselhos e procurarei acatá-los. Investirei em docilidade. Até no caso de meu conselheiro me reprovar ou me apontar caminhos difíceis. Serei submisso; serei grato; buscarei a obediência inteligente. Aceitarei autoridade sobre mim e a honrarei; orarei por ela. Serei, novamente, “admoestável”.

Quem sabe, a partir desse exercício, em oração, a Bíblia, que há tanto tempo me tem falado palavras bonitas, volte a me dizer o que preciso ouvir. E ouvindo o que preciso ouvir (e não apenas o que eu mesmo falo), eu me cure desta insidiosa anorexia espiritual. Amém.

Está chegando o Natal. Não sei explicar por que essa época me deixa nostálgico. Um sentimento ao mesmo tempo doce e dolorido. Parecido com a saudade, que dói porque é lembrança boa. Mas dói. Porque já não é.

Parece que faz tanto tempo que ele veio! Um menino destinado a virar o mundo de cabeça para baixo. Um homem obstinadamente decidido a morrer. Mas não uma morte qualquer. Nem mesmo martírio. Ele só se entregaria aos seus algozes para consumar o que dele diziam as escrituras. E assim foi. E sua figura, naquela cruz infame, avultou e agigantou-se como a conjugação, inconcebível, da justiça com a misericórdia de Deus. Nele se realizava o que até então fora somente esperança. E pelas suas pisaduras fomos sarados.

Parece que faz tanto tempo que cremos nele. Como se a magia do Natal tivesse cedido seu brilho para os shoppings reluzentes, para a compra dos presentes, para a preparação das festas, dos cultos; para o ensaio do coral, da encenação a ser apresentada no dia 24. Como se “o verdadeiro sentido do Natal” tivesse ficado nos melosos filmes Disney que assistimos tantas vezes na tv, nessa época. Com direito a trenó, renas e duendes. Como se Natal fosse coisa da nossa infância.

Eu acho um tempo bom. Nostálgico.

Tempo de introspecção, também. Parece que já não conseguimos nos relacionar tão afetiva e pessoalmente com aquele Jesus com quem tivemos um encontro íntimo, pessoal, profundo, transformador, insofismável, inesquecível. Aquele que recebemos exultantes em nosso coração e que se transformou em nascente de rio, em fonte de energia, em razão de viver, em segurança emocional, em ministério pessoal etc. a contaminar tudo e todos à nossa volta. Aquele que nos levou para o exílio e nos fez estrangeiros em nossa própria terra, mas que, ao mesmo tempo, nos trouxe para perto, para sua família.

O que terá acontecido? Por que esse sentimento de solidão nostálgica? Por que me sinto como o último ingênuo, que não percebeu ainda que “Papai Noel não existe”?

Será que, por pena, ninguém me contou que crescemos como civilização e que essas coisas pueris já não cabem em nossa madura cultura tecnológica? Que a pós-modernidade é também pós-cristã? Que o Natal não deve ligar-se ao Jesus bíblico, para não discriminar os (consumidores) que não crêem nele? Que, por isso, devemos usar a expressão Christmas Seasons (festas de fim-de-ano), politicamente mais correta, de modo a incluir aqueles que não crêem em Jesus?

Ou será que estou sentindo uma presença nova no mundo, prestes ser manifestada? Um novo avatar que encerrará a era de peixes para inaugurar a regência de aquários? Um usurpador, decidido a transformar em saudosas lembranças nossas mais sólidas convicções? Estarei pressentindo o “homem da iniqüidade” já entre nós? Aquele que “se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus” (2Ts 2: 3,4)? Tenha Deus misericórdia de nós. Em especial, de nossos filhos e netos. Que a eles seja dada a unção necessária para enfrentar a Besta e sustentar o testemunho de Jesus.

Precisamos orar pelo país. Temos esquecido de incluir o Brasil em nossos programas de oração. Deixamos nosso povo e nossos governantes sem cobertura. Dá no que dá.

Deus fez sua parte. Somos um país “abençoado por Deus”, com imensas riquezas naturais, terras férteis, clima ameno etc. Falta orar por nosso povo e por nossos governantes.

Penso logo numa lista de pedidos.

Gostaria de poder comprar jornal numa caixa na calçada, onde coloco o dinheiro e pego o jornal, sem necessidade de vigias.

Gostaria de poder tirar uma simples cópia, sem ter que pedir ao encarregado da chave do armário do papel da copiadora. Gostaria de não ter que trancar na gaveta, todo fim de expediente, meus papéis, réguas e canetas. Sem tranca, tudo desaparece, da noite para o dia.

Gostaria de ver os gramados de Brasília sem aquelas milhares trilhas na grama. O povo não usa as calçadas que não coincidam com a linha reta que pretendem traçar ao seu destino.

Gostaria que meus vizinhos usassem a sua água para lavar o carro, e não fizessem “gatos” na água do condomínio. O mesmo para a luz, a tevê a cabo e até para linhas telefônicas.

Gostaria que as pessoas fossem pontuais. Que simplesmente chegassem na hora marcada. A gente perderia menos tempo na vida, esperando por gente que acha que tem o direito de nos fazer esperar (se reclamamos, dizem: “relaxa!”).

Gostaria que todos os motoristas que encontro nas ruas tivessem carteiras legítimas e soubessem as regras de trânsito. Que a compra de carteiras, certidões, diplomas, atestados e tudo o mais não fosse “normal”.

Gostaria que alguém se escandalizasse quando um político entra de licença médica, como recurso “de praxe” para se afastar. Que alguém pedisse uma junta médica para verificar se ele realmente está doente.

Gostaria que meu presidente soubesse alguma coisa do que se passa fora do seu gabinete; no país que diz governar, por exemplo. Mas ele repete que não sabia.

Gostaria que Roberto Jefferson e Fernando Collor não mais se apresentassem como “garotos-propaganda” de um partido, como se fossem referências nacionais.

Gostaria que Marta Suplicy deixasse de pensar só “naquilo”. Em especial, quando se fala de crise na aviação. “Relaxar e gozar” durante um estupro, na boca de uma ministra de estado só pode ser o fundo do poço moral de uma nação. Se ela não puder mais ser mudada (nem com oração), que seja retirada do cargo.

Quanta matéria de oração, para melhorar nosso país! Imagino que lhe ocorram muitas outras, leitor.

Será que Deus consegue?

Bem, a resposta encontraremos no espelho. Ao pensar nesses “pedidos de oração”, vale perguntar: é por essa imagem no espelho que estou orando? Não seria o caso de usar, então, “nós”, como fez Neemias?

Estejam, pois, atentos os teus ouvidos, e os teus olhos, abertos, para acudires à oração do teu servo, que hoje faço à tua presença, dia e noite, pelos filhos de Israel, teus servos; e faço confissão pelos pecados dos filhos de Israel, os quais temos cometido contra ti; pois eu e a casa de meu pai temos pecado. Temos procedido de todo corruptamente contra ti, não temos guardado os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos que ordenaste a Moisés, teu servo. (Ne 1:6,7)

Devemos orar pelo Brasil, sem dúvida. Deus, na sua misericórdia, responderá se, com temor, suplicarmos por esse rosto que vemos no espelho.

Procurou-me, recentemente, um jovem irmão, inconformado com sua sorte. Crente novo, esforçado e ávido por crescimento espiritual, não conseguia entender a razão por que Deus não o abençoava muito com bens materiais.

Servidor público, esposa por conta dos filhos pequenos, trabalhando de dia e estudando de noite, ele levava uma vida dura, mas não era exatamente um necessitado. Achava, no entanto, que, comparativamente a outros irmãos “na mesma faixa”, estava sendo deixado para trás por Deus.

Perguntei-lhe por que pensava assim. E ele apontou alguns amigos comuns. Um lhe dissera que estava comprando um carro novo, enquanto o seu já estava bem batido; outro dera entrada no apartamento da família, e ele ainda morava de aluguel; outro ainda, estava chegando de viagem ao exterior, com toda a família, para aproveitar o dólar barato, coisa que ele nem podia considerar, por enquanto. Disse que podia citar muitos outros exemplos.

Fiquei pensando na frustração do irmão. No momento, disse-lhe que não devia se comparar com seus irmãos, pois as circunstâncias de vida eram diferentes. Que confiasse na justiça e no amor do Pai. Mas ele me respondeu: “o que custa a Deus me dar também um pouquinho de seu ouro e de sua prata?” Não pude deixar de notar uma pontinha de inveja e inconformismo.

Fiquei com a perplexidade do irmão no coração. Passei, então, a observar mais de perto os exemplos que ele apresentara, pedindo a Deus que me ajudasse a discernir esse cenário.

Tenho aprendido, desde então, que é tarefa elevada demais, tanto para o irmão quanto para mim, buscar uma resposta para essas diferenças. Se Deus dá cinco talentos a um, dois a outro, e ao terceiro um, “segundo a sua própria capacidade” (Mt 25,15), que posso dizer? E isso apaziguou meu coração. Deus sabe!

No entanto, não foi de todo infrutífera a observação sistemática dos “exemplos de sucesso”. Descobri que o que comprara o carro luxuoso tivera ajuda do sogro, que desejava ajudar à filha e não a ele. O que financiara um apartamento contraíra uma dívida de 25 anos, no limite de sua capacidade máxima de endividamento, e dera de entrada o carro que a esposa trouxera para o casamento, passando a família a andar de ônibus e metrô. O que viajara a Disney, levara crianças pequenas demais para apreciar a viagem e ainda se endividara por 12 meses, período este em que “não poderia nem pensar em ofertas à igreja”.

Essa última observação me pareceu gratuita, a princípio, mas levou-me de volta ao irmão frustrado para perguntar-lhe como entendia a questão de dízimos e ofertas. E ele me disse que isso era “acordo fechado” na vida do casal: “primeiro o Senhor; depois as despesas”. Surpreso e curioso, voltei aos nossos “abençoados”, e descobri que só ofertavam “quando a situação permitia”. Ou seja, raramente. Que contraste!

Conclusão, mesmo sem respostas finais, já tenho uma pergunta a fazer ao irmãozinho: será realmente abençoada uma alma incapaz de dar? Será bênção um presente ao qual me apegarei de tal modo que se tornará meu algoz? Será bênção um bem capaz de me afastar de meus ideais, da minha fé? Será bênção algo que digo vir do Senhor, mas que, imediatamente me faz proprietário dele? Incapaz de olhar para os lados, de compartilhar com o necessitado porque nunca há o suficiente? Será abençoado o rico incapaz de ofertar ao Senhor? Será que esses bens são, realmente, bênçãos? “Melhor é o pouco, havendo o temor do Senhor, do que grande tesouro onde há inquietação” (Pv 15,16).

Em sua edição de julho de 2006, a revista Valor Econômico Online publicou o artigo “Vida afetiva versus profissional: é diferente para a mulher?”, assinado por Betânia Tanure, da Fundação Dom Cabral. Nesse artigo, a professora comenta sua pesquisa sobre “as felicidades e infelicidades dos executivos”, detendo-se sobre o universo das relações afetivas das mulheres executivas.

Uma das revelações dessa pesquisa “é que os homens encontram dificuldades em aceitar mulheres ‘poderosas’, que não dependam deles”. Outra é que “a executiva tem de enfrentar mais barreiras do que seu colega para encetar uma parceria amorosa estável ou manter um relacionamento”. Os dados mostram que “há quase três vezes mais mulheres solitárias do que homens na mesma situação. Entre as pesquisadas, 36% estavam separadas, solteiras ou viúvas, enquanto a proporção de homens sozinhos era de apenas 13%. Muitas dessas executivas confessaram-se insatisfeitas por não encontrar parceiros estáveis, especialmente aquelas que sentem a pressão do relógio biológico. Algumas mulheres que já passaram da fase convencionalmente reservada à maternidade hoje lamentam a opção feita. Essa cruel escolha não tem o mesmo efeito nos homens. Entre eles o peso da idade é menor no que diz respeito à paternidade”.

As executivas casadas são quase unânimes em dizer que a necessidade de dar atenção aos filhos acaba por prejudicar suas relações com os maridos, que se sentem preteridos. Mais que isso, elas dizem que os homens não gostam de dividir igualitariamente as responsabilidades domésticas, mesmo quando a maior fatia da renda familiar venha delas. Ao mesmo tempo, um número expressivo dessas executivas provedoras submete-se totalmente às decisões dos maridos na elaboração do orçamento doméstico. Tanure comenta que os depoimentos dessas “amélias modernas” revelam que o preconceito está muito arraigado nas próprias mulheres.

O paradoxo revelado pela pesquisa é que “apesar da solidão e dos tormentos, a grande maioria das executivas continua apostando na carreira. Elas sentem prazer no que fazem e obtêm sucesso ao encarar os desafios empresariais”.

O comentário final da articulista, diante do paradoxo, é triste: “Essas mulheres atingiram a felicidade de ser mais livres, mais capazes de escrever seus próprios destinos, mais donas das suas decisões. Ao mesmo tempo, entretanto, encontram sérias dificuldades quando tentam exercer essa liberdade nas relações afetivas”.

Confesso que, ao deparar com essa difícil realidade vivida pelas mulheres executivas, tenho a tendência de disfarçar meu preconceito em misericórdia e sugerir a elas que voltem para casa — e sejam felizes. Mas sei que essa “nova mulher” veio para ficar. Então, que fazer?

A resposta que encontro é o resgate do ensino de Ef 5, 21-32, trazendo-o para este cenário moderno. Sim, como seria a vida dessas executivas solitárias se, ao voltar do trabalho, encontrassem em casa maridos empenhados em amar suas mulheres “como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5, 25)? Só saberemos se tentarmos — em oração.

O recém-criado Instituto Internacional do Perdão, em Madison, Wisconsin, EUA, chama atenção pelo nome. Um de seus objetivos é levar às crianças de escolas públicas de Belfast, Irlanda do Norte, o resultado de anos de pesquisa sobre a terapia do perdão. “Treinamos os professores e eles entregaram a formação às crianças”, diz o psicólogo Dr. Robert Enright, criador do Instituto e autor do livro: Ajudando os Clientes a Perdoar: Um Guia Empírico para Resolver a Ira e Restaurar a Esperança (APA Books, 2000).
Em entrevista ao jornal eletrônico Zenit (zenit.org), Dr. Enright diz que o trabalho em Belfast busca ajudar aquela cidade marcada pela guerra. Ele espera que as crianças, através dos anos, tornem-se doadoras de perdão. “Este ano, vamos à quinta série, no próximo ano ao segundo grau. Descobrimos que crianças pequenas … podem aprender sobre o perdão e então fazer reduzir a raiva excessiva”, diz ele. “A esperança é que, armados com essa profunda compreensão do perdão, elas como adultas forjarão uma paz mais satisfatória em suas comunidades que a que têm hoje”, conclui.
Acho interessante a perspectiva de um perdão que alcance gerações. Em especial, em áreas de guerra ou nos guetos. Dr. Enright ensina que as pessoas levam para o casamento feridas e iras profundas; muitas delas recebidas de seus pais. E as passarão para seus filhos, se não tiverem ajuda.
As técnicas terapêuticas envolvem uma lenta e cuidadosa progressão em direção ao “perdão cognitivo”, que começa com pensamentos de perdão e declarações positivas em direção ao agressor. “A pessoa neste ponto não precisa de aproximação ao ofensor, mas fazer esse perdão cognitivo consigo mesma”, diz Enright.
“Não é um processo fácil”, diz o entrevistado. “Seguir o perdão cognitivo é perdão emocional, a abertura de si mesmo à compaixão e ao amor para com aquele que o feriu. Isso é difícil e pode levar tempo. Algumas pessoas em terapia não estão prontas para esse passo e isso deve ser honrado. Ainda é um mistério para nós como tal compaixão cresce no coração humano para com as pessoas que [lhe] foram e são profundamente injustas. Certamente a graça de Deus é operante aqui, mas nós como cientistas não temos a linguagem para descrever isso completamente. A ciência é limitada como são todas nossas tentativas humanas de entender os mistérios”.
Mistérios, de fato! Fico animado, no entanto, em saber que se estejam buscando caminhos terapêuticos para trabalhar com esse mistério, em particular. Vejo a ciência e a fé caminhando juntas em direção ao alvo perfeito: a reconciliação.
E pensar que nós cristãos sabemos tão pouco sobre esse tema central do evangelho. Mistério para nós também. Quando muito, compreendemos que devemos orar pelos nossos ofensores, em vez de amaldiçoá-los. É uma forma de buscar o “perdão cognitivo”. Mas precisamos aprender a dar passos certos na direção da cura de nossas próprias almas. Porque perdão retido transforma-se em verdugo e algoz. É hora de aprendermos a discernir, praticamente, a ordem de Jesus: “Deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta”. Mt 5,24.