Em 2008, vou romper com a síndrome do divã. Vou me aconselhar como quem deseja ouvir e crescer.

Nessa última novela da Globo (Eterna Magia), toda construída sobre mentiras e segredos, chamou-me a atenção uma cena em que, após longa conversa com um padre, a pessoa termina dizendo: “obrigado por me ouvir; eu estava precisando botar para fora”.

Notei que, tanto nesse caso quanto nos demais, o padre nunca era atendido ou considerado em seus conselhos. Era apenas um ouvinte disponível, paciente e que fazia boas perguntas. Era assim que ajudava as pessoas. Mas ficou claro, no enredo, que, se o tivessem ouvido, o rumo daquelas vidas teria sido diferente. Para melhor. E a novela teria terminado precocemente, claro.

Passei a prestar mais atenção às minhas conversas, seja como conselheiro, seja como consulente. E constatei que sofremos todos desse subproduto indesejado da cultura psicanalítica em que vivemos. Nada contra os psicanalistas, claro. O problema atinge também a quem nunca se deitou num divã. Meu olhar é sobre o aconselhamento cristão.

Parece que temos carência de falar. Dizer já não é tão importante. Ouvir, muito menos. Obedecer, bem, de que baú, tiraram esse verbo?

Nesse sentido, embora algo de consolador e terapêutico permaneça nesses monólogos disfarçados de aconselhamento, percebo que muitos elementos cristãos estão desaparecendo. Por exemplo, a autoridade. Nessas conversas, não se busca, de fato, a sabedoria ou a experiência do conselheiro. Claro que desejamos um interlocutor preparado. Mas o que queremos é uma vaga em sua agenda. Em especial, em seus ouvidos. Quanto mais tempo, melhor.

Desaparece, também, a submissão. Submeter-se a um amigo, um irmão? Que também tem seus problemas? Ouvi dizer que é melhor procurar alguém que não nos conheça bem — traz menos problemas.

Desaparece a autoridade e o poder coercitivo das escrituras. Liquefazem-se princípios, verdades, certezas, tradições e outros fatores de segurança que o texto bíblico traz. Abrir a Bíblia, em um aconselhamento, hoje em dia, já não é tão fácil. Além de interromper o fluxo do raciocínio daquele que está ali para falar, pode trazer constrangimento. Falta disposição para ouvir conselhos. Ou para versos bíblicos, com aplicações “discutíveis”. Se insistir, o conselheiro perde muitos pontos.

Sim, pastores, mentores e conselheiros têm sido reduzidos a ouvintes privilegiados. E serão tão menos procurados quanto menos disponíveis estiverem para uma audição “gentil”.

Este ano, desejo mudar. Falarei menos e aprenderei mais. Ouvirei conselhos e procurarei acatá-los. Investirei em docilidade. Até no caso de meu conselheiro me reprovar ou me apontar caminhos difíceis. Serei submisso; serei grato; buscarei a obediência inteligente. Aceitarei autoridade sobre mim e a honrarei; orarei por ela. Serei, novamente, “admoestável”.

Quem sabe, a partir desse exercício, em oração, a Bíblia, que há tanto tempo me tem falado palavras bonitas, volte a me dizer o que preciso ouvir. E ouvindo o que preciso ouvir (e não apenas o que eu mesmo falo), eu me cure desta insidiosa anorexia espiritual. Amém.

Está chegando o Natal. Não sei explicar por que essa época me deixa nostálgico. Um sentimento ao mesmo tempo doce e dolorido. Parecido com a saudade, que dói porque é lembrança boa. Mas dói. Porque já não é.

Parece que faz tanto tempo que ele veio! Um menino destinado a virar o mundo de cabeça para baixo. Um homem obstinadamente decidido a morrer. Mas não uma morte qualquer. Nem mesmo martírio. Ele só se entregaria aos seus algozes para consumar o que dele diziam as escrituras. E assim foi. E sua figura, naquela cruz infame, avultou e agigantou-se como a conjugação, inconcebível, da justiça com a misericórdia de Deus. Nele se realizava o que até então fora somente esperança. E pelas suas pisaduras fomos sarados.

Parece que faz tanto tempo que cremos nele. Como se a magia do Natal tivesse cedido seu brilho para os shoppings reluzentes, para a compra dos presentes, para a preparação das festas, dos cultos; para o ensaio do coral, da encenação a ser apresentada no dia 24. Como se “o verdadeiro sentido do Natal” tivesse ficado nos melosos filmes Disney que assistimos tantas vezes na tv, nessa época. Com direito a trenó, renas e duendes. Como se Natal fosse coisa da nossa infância.

Eu acho um tempo bom. Nostálgico.

Tempo de introspecção, também. Parece que já não conseguimos nos relacionar tão afetiva e pessoalmente com aquele Jesus com quem tivemos um encontro íntimo, pessoal, profundo, transformador, insofismável, inesquecível. Aquele que recebemos exultantes em nosso coração e que se transformou em nascente de rio, em fonte de energia, em razão de viver, em segurança emocional, em ministério pessoal etc. a contaminar tudo e todos à nossa volta. Aquele que nos levou para o exílio e nos fez estrangeiros em nossa própria terra, mas que, ao mesmo tempo, nos trouxe para perto, para sua família.

O que terá acontecido? Por que esse sentimento de solidão nostálgica? Por que me sinto como o último ingênuo, que não percebeu ainda que “Papai Noel não existe”?

Será que, por pena, ninguém me contou que crescemos como civilização e que essas coisas pueris já não cabem em nossa madura cultura tecnológica? Que a pós-modernidade é também pós-cristã? Que o Natal não deve ligar-se ao Jesus bíblico, para não discriminar os (consumidores) que não crêem nele? Que, por isso, devemos usar a expressão Christmas Seasons (festas de fim-de-ano), politicamente mais correta, de modo a incluir aqueles que não crêem em Jesus?

Ou será que estou sentindo uma presença nova no mundo, prestes ser manifestada? Um novo avatar que encerrará a era de peixes para inaugurar a regência de aquários? Um usurpador, decidido a transformar em saudosas lembranças nossas mais sólidas convicções? Estarei pressentindo o “homem da iniqüidade” já entre nós? Aquele que “se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus” (2Ts 2: 3,4)? Tenha Deus misericórdia de nós. Em especial, de nossos filhos e netos. Que a eles seja dada a unção necessária para enfrentar a Besta e sustentar o testemunho de Jesus.

Precisamos orar pelo país. Temos esquecido de incluir o Brasil em nossos programas de oração. Deixamos nosso povo e nossos governantes sem cobertura. Dá no que dá.

Deus fez sua parte. Somos um país “abençoado por Deus”, com imensas riquezas naturais, terras férteis, clima ameno etc. Falta orar por nosso povo e por nossos governantes.

Penso logo numa lista de pedidos.

Gostaria de poder comprar jornal numa caixa na calçada, onde coloco o dinheiro e pego o jornal, sem necessidade de vigias.

Gostaria de poder tirar uma simples cópia, sem ter que pedir ao encarregado da chave do armário do papel da copiadora. Gostaria de não ter que trancar na gaveta, todo fim de expediente, meus papéis, réguas e canetas. Sem tranca, tudo desaparece, da noite para o dia.

Gostaria de ver os gramados de Brasília sem aquelas milhares trilhas na grama. O povo não usa as calçadas que não coincidam com a linha reta que pretendem traçar ao seu destino.

Gostaria que meus vizinhos usassem a sua água para lavar o carro, e não fizessem “gatos” na água do condomínio. O mesmo para a luz, a tevê a cabo e até para linhas telefônicas.

Gostaria que as pessoas fossem pontuais. Que simplesmente chegassem na hora marcada. A gente perderia menos tempo na vida, esperando por gente que acha que tem o direito de nos fazer esperar (se reclamamos, dizem: “relaxa!”).

Gostaria que todos os motoristas que encontro nas ruas tivessem carteiras legítimas e soubessem as regras de trânsito. Que a compra de carteiras, certidões, diplomas, atestados e tudo o mais não fosse “normal”.

Gostaria que alguém se escandalizasse quando um político entra de licença médica, como recurso “de praxe” para se afastar. Que alguém pedisse uma junta médica para verificar se ele realmente está doente.

Gostaria que meu presidente soubesse alguma coisa do que se passa fora do seu gabinete; no país que diz governar, por exemplo. Mas ele repete que não sabia.

Gostaria que Roberto Jefferson e Fernando Collor não mais se apresentassem como “garotos-propaganda” de um partido, como se fossem referências nacionais.

Gostaria que Marta Suplicy deixasse de pensar só “naquilo”. Em especial, quando se fala de crise na aviação. “Relaxar e gozar” durante um estupro, na boca de uma ministra de estado só pode ser o fundo do poço moral de uma nação. Se ela não puder mais ser mudada (nem com oração), que seja retirada do cargo.

Quanta matéria de oração, para melhorar nosso país! Imagino que lhe ocorram muitas outras, leitor.

Será que Deus consegue?

Bem, a resposta encontraremos no espelho. Ao pensar nesses “pedidos de oração”, vale perguntar: é por essa imagem no espelho que estou orando? Não seria o caso de usar, então, “nós”, como fez Neemias?

Estejam, pois, atentos os teus ouvidos, e os teus olhos, abertos, para acudires à oração do teu servo, que hoje faço à tua presença, dia e noite, pelos filhos de Israel, teus servos; e faço confissão pelos pecados dos filhos de Israel, os quais temos cometido contra ti; pois eu e a casa de meu pai temos pecado. Temos procedido de todo corruptamente contra ti, não temos guardado os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos que ordenaste a Moisés, teu servo. (Ne 1:6,7)

Devemos orar pelo Brasil, sem dúvida. Deus, na sua misericórdia, responderá se, com temor, suplicarmos por esse rosto que vemos no espelho.

Procurou-me, recentemente, um jovem irmão, inconformado com sua sorte. Crente novo, esforçado e ávido por crescimento espiritual, não conseguia entender a razão por que Deus não o abençoava muito com bens materiais.

Servidor público, esposa por conta dos filhos pequenos, trabalhando de dia e estudando de noite, ele levava uma vida dura, mas não era exatamente um necessitado. Achava, no entanto, que, comparativamente a outros irmãos “na mesma faixa”, estava sendo deixado para trás por Deus.

Perguntei-lhe por que pensava assim. E ele apontou alguns amigos comuns. Um lhe dissera que estava comprando um carro novo, enquanto o seu já estava bem batido; outro dera entrada no apartamento da família, e ele ainda morava de aluguel; outro ainda, estava chegando de viagem ao exterior, com toda a família, para aproveitar o dólar barato, coisa que ele nem podia considerar, por enquanto. Disse que podia citar muitos outros exemplos.

Fiquei pensando na frustração do irmão. No momento, disse-lhe que não devia se comparar com seus irmãos, pois as circunstâncias de vida eram diferentes. Que confiasse na justiça e no amor do Pai. Mas ele me respondeu: “o que custa a Deus me dar também um pouquinho de seu ouro e de sua prata?” Não pude deixar de notar uma pontinha de inveja e inconformismo.

Fiquei com a perplexidade do irmão no coração. Passei, então, a observar mais de perto os exemplos que ele apresentara, pedindo a Deus que me ajudasse a discernir esse cenário.

Tenho aprendido, desde então, que é tarefa elevada demais, tanto para o irmão quanto para mim, buscar uma resposta para essas diferenças. Se Deus dá cinco talentos a um, dois a outro, e ao terceiro um, “segundo a sua própria capacidade” (Mt 25,15), que posso dizer? E isso apaziguou meu coração. Deus sabe!

No entanto, não foi de todo infrutífera a observação sistemática dos “exemplos de sucesso”. Descobri que o que comprara o carro luxuoso tivera ajuda do sogro, que desejava ajudar à filha e não a ele. O que financiara um apartamento contraíra uma dívida de 25 anos, no limite de sua capacidade máxima de endividamento, e dera de entrada o carro que a esposa trouxera para o casamento, passando a família a andar de ônibus e metrô. O que viajara a Disney, levara crianças pequenas demais para apreciar a viagem e ainda se endividara por 12 meses, período este em que “não poderia nem pensar em ofertas à igreja”.

Essa última observação me pareceu gratuita, a princípio, mas levou-me de volta ao irmão frustrado para perguntar-lhe como entendia a questão de dízimos e ofertas. E ele me disse que isso era “acordo fechado” na vida do casal: “primeiro o Senhor; depois as despesas”. Surpreso e curioso, voltei aos nossos “abençoados”, e descobri que só ofertavam “quando a situação permitia”. Ou seja, raramente. Que contraste!

Conclusão, mesmo sem respostas finais, já tenho uma pergunta a fazer ao irmãozinho: será realmente abençoada uma alma incapaz de dar? Será bênção um presente ao qual me apegarei de tal modo que se tornará meu algoz? Será bênção um bem capaz de me afastar de meus ideais, da minha fé? Será bênção algo que digo vir do Senhor, mas que, imediatamente me faz proprietário dele? Incapaz de olhar para os lados, de compartilhar com o necessitado porque nunca há o suficiente? Será abençoado o rico incapaz de ofertar ao Senhor? Será que esses bens são, realmente, bênçãos? “Melhor é o pouco, havendo o temor do Senhor, do que grande tesouro onde há inquietação” (Pv 15,16).

Em sua edição de julho de 2006, a revista Valor Econômico Online publicou o artigo “Vida afetiva versus profissional: é diferente para a mulher?”, assinado por Betânia Tanure, da Fundação Dom Cabral. Nesse artigo, a professora comenta sua pesquisa sobre “as felicidades e infelicidades dos executivos”, detendo-se sobre o universo das relações afetivas das mulheres executivas.

Uma das revelações dessa pesquisa “é que os homens encontram dificuldades em aceitar mulheres ‘poderosas’, que não dependam deles”. Outra é que “a executiva tem de enfrentar mais barreiras do que seu colega para encetar uma parceria amorosa estável ou manter um relacionamento”. Os dados mostram que “há quase três vezes mais mulheres solitárias do que homens na mesma situação. Entre as pesquisadas, 36% estavam separadas, solteiras ou viúvas, enquanto a proporção de homens sozinhos era de apenas 13%. Muitas dessas executivas confessaram-se insatisfeitas por não encontrar parceiros estáveis, especialmente aquelas que sentem a pressão do relógio biológico. Algumas mulheres que já passaram da fase convencionalmente reservada à maternidade hoje lamentam a opção feita. Essa cruel escolha não tem o mesmo efeito nos homens. Entre eles o peso da idade é menor no que diz respeito à paternidade”.

As executivas casadas são quase unânimes em dizer que a necessidade de dar atenção aos filhos acaba por prejudicar suas relações com os maridos, que se sentem preteridos. Mais que isso, elas dizem que os homens não gostam de dividir igualitariamente as responsabilidades domésticas, mesmo quando a maior fatia da renda familiar venha delas. Ao mesmo tempo, um número expressivo dessas executivas provedoras submete-se totalmente às decisões dos maridos na elaboração do orçamento doméstico. Tanure comenta que os depoimentos dessas “amélias modernas” revelam que o preconceito está muito arraigado nas próprias mulheres.

O paradoxo revelado pela pesquisa é que “apesar da solidão e dos tormentos, a grande maioria das executivas continua apostando na carreira. Elas sentem prazer no que fazem e obtêm sucesso ao encarar os desafios empresariais”.

O comentário final da articulista, diante do paradoxo, é triste: “Essas mulheres atingiram a felicidade de ser mais livres, mais capazes de escrever seus próprios destinos, mais donas das suas decisões. Ao mesmo tempo, entretanto, encontram sérias dificuldades quando tentam exercer essa liberdade nas relações afetivas”.

Confesso que, ao deparar com essa difícil realidade vivida pelas mulheres executivas, tenho a tendência de disfarçar meu preconceito em misericórdia e sugerir a elas que voltem para casa — e sejam felizes. Mas sei que essa “nova mulher” veio para ficar. Então, que fazer?

A resposta que encontro é o resgate do ensino de Ef 5, 21-32, trazendo-o para este cenário moderno. Sim, como seria a vida dessas executivas solitárias se, ao voltar do trabalho, encontrassem em casa maridos empenhados em amar suas mulheres “como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5, 25)? Só saberemos se tentarmos — em oração.

O recém-criado Instituto Internacional do Perdão, em Madison, Wisconsin, EUA, chama atenção pelo nome. Um de seus objetivos é levar às crianças de escolas públicas de Belfast, Irlanda do Norte, o resultado de anos de pesquisa sobre a terapia do perdão. “Treinamos os professores e eles entregaram a formação às crianças”, diz o psicólogo Dr. Robert Enright, criador do Instituto e autor do livro: Ajudando os Clientes a Perdoar: Um Guia Empírico para Resolver a Ira e Restaurar a Esperança (APA Books, 2000).
Em entrevista ao jornal eletrônico Zenit (zenit.org), Dr. Enright diz que o trabalho em Belfast busca ajudar aquela cidade marcada pela guerra. Ele espera que as crianças, através dos anos, tornem-se doadoras de perdão. “Este ano, vamos à quinta série, no próximo ano ao segundo grau. Descobrimos que crianças pequenas … podem aprender sobre o perdão e então fazer reduzir a raiva excessiva”, diz ele. “A esperança é que, armados com essa profunda compreensão do perdão, elas como adultas forjarão uma paz mais satisfatória em suas comunidades que a que têm hoje”, conclui.
Acho interessante a perspectiva de um perdão que alcance gerações. Em especial, em áreas de guerra ou nos guetos. Dr. Enright ensina que as pessoas levam para o casamento feridas e iras profundas; muitas delas recebidas de seus pais. E as passarão para seus filhos, se não tiverem ajuda.
As técnicas terapêuticas envolvem uma lenta e cuidadosa progressão em direção ao “perdão cognitivo”, que começa com pensamentos de perdão e declarações positivas em direção ao agressor. “A pessoa neste ponto não precisa de aproximação ao ofensor, mas fazer esse perdão cognitivo consigo mesma”, diz Enright.
“Não é um processo fácil”, diz o entrevistado. “Seguir o perdão cognitivo é perdão emocional, a abertura de si mesmo à compaixão e ao amor para com aquele que o feriu. Isso é difícil e pode levar tempo. Algumas pessoas em terapia não estão prontas para esse passo e isso deve ser honrado. Ainda é um mistério para nós como tal compaixão cresce no coração humano para com as pessoas que [lhe] foram e são profundamente injustas. Certamente a graça de Deus é operante aqui, mas nós como cientistas não temos a linguagem para descrever isso completamente. A ciência é limitada como são todas nossas tentativas humanas de entender os mistérios”.
Mistérios, de fato! Fico animado, no entanto, em saber que se estejam buscando caminhos terapêuticos para trabalhar com esse mistério, em particular. Vejo a ciência e a fé caminhando juntas em direção ao alvo perfeito: a reconciliação.
E pensar que nós cristãos sabemos tão pouco sobre esse tema central do evangelho. Mistério para nós também. Quando muito, compreendemos que devemos orar pelos nossos ofensores, em vez de amaldiçoá-los. É uma forma de buscar o “perdão cognitivo”. Mas precisamos aprender a dar passos certos na direção da cura de nossas próprias almas. Porque perdão retido transforma-se em verdugo e algoz. É hora de aprendermos a discernir, praticamente, a ordem de Jesus: “Deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta”. Mt 5,24.

Às vezes não consigo entender certos conceitos de justiça e lealdade que surgem e se consolidam em setores de nossa sociedade. Digo setores porque há grupos muito específicos ligados a tipos específicos de preocupações. Vou dar um exemplo.
Tive um amigo que gostava muito de caçar. Desses desportistas fanáticos, que compram várias armas, assinam revistas, freqüentam clubes etc. Não sei como o assunto surgiu, mas, de repente, estávamos falando sobre a ética envolvida na caça, e eu perguntava:
— Que ética existe na caça por esporte?
— A gente tem regras — respondia ele. — O animal sempre tem que ter uma chance de escapar.
— Mas como, regras? — indaguei. — Você está com um trabuco. E o passarinho, vai lhe enfrentar com o quê?
— Não, ele não vai me enfrentar; ele pode fugir — respondeu o caçador.
— E esse assobio especial? Para que serve?
— Eu uso o assobio para chamar o pato. Quando ele atende, mando chumbo.
Fiquei muito irritado com o conceito de ética daquele rapaz. Acabei estragando a conversa, com a seguinte sugestão:
— Por que você não entra numa floresta, de noite, com dez facas nas mãos, e sai à caça de um tigre? Ele com dez unhas e você com dez facas. Sem assobios, trinados, nem nada. Não lhe parece mais justo?
E ele ficou me olhando com aquele olhar que diz: você está “apelando”.

De Volta ao Útero
Uma outra área onde a ética é bem específica, e bem consolidada dentro de um grupo, é a área do aborto. As pessoas favoráveis ao aborto formam um grupo sólido e grande; gente estudiosa e militante, politicamente falando. Gostam de se reunir, como os caçadores, e de falar e planejar atividades.
Aí está outro tema cuja ética não consigo entender. É uma espécie de campo minado, porque envolve muita emoção, e, em muitos casos, a própria vida da mãe. Por isso, quero lhe sugerir uma ótica específica; bíblica, em sua essência. A ótica do oprimido, da vítima. Coloque-se comigo no lugar da caça, digo, do nenezinho que vai nascer. Vamos visitar as grandes discussões sobre este tema, olhando a situação do lado do nenê. Você é o bebê. Vamos?
Primeira semana: o óvulo fecundado entra no útero da sua mãe. Uma nova vida começa a se desenvolver. Você já é um ser vivo! Não se sabe muito a respeito desse estágio de vida. Muitos teólogos acreditam que você já tem o espírito dado por Deus. Já é uma alminha vivente. Portanto, já é alvo da ternura paternal de Deus, e pode, já, começar a receber o amor de sua mãe e de seu pai, se eles pressentirem sua presença. Você pode, sem saber, estar sendo festejado com dança e com choro. Com champanhe ou com silêncio misterioso.
Segunda semana: Com apenas quatorze dias, já está umbilicalmente ligado à sua mãe e começa a receber alimento materno. Você está sendo nutrido por ela. Isso é muito forte para os dois. Uma relação vital, de profundas implicações psicológicas e emocionais se estabelece. Sua mãe, inclusive, pode estar experimentando sentimentos, sensações e uma consciência que de alguma forma se relacionam com o ato divino da criação. Imagine! Um entezinho sendo formado dentro dela! Pode ser que ela não esteja gostando disso. Mas ainda assim, a experiência é fortíssima e inesquecível.
Da primeira à quarta semana aparecem os seus olhos, sua coluna vertebral, seu cérebro, seus pulmões, o estômago, o fígado e os rins. Neste período, seu coraçãozinho começa a bater! Normalmente sua mãe ainda não sabe de você. Distraída, ela espera pela menstruação mensal. Mas se ela sabe, e vai ao médico, ele poderá sentir, por meio de instrumentos supersensíveis, o seu pulsar, e dizer se está tudo bem com você. Ao final deste período, sua cabeça já está em formação; o crânio já está completo; a espinha dorsal também, e os braços e pernas já começam a aparecer, ainda sem forma definida. Você já tem jeito de gente.
Quinta semana: o seu tórax e abdômen estão formados separadamente. Seus olhos já possuem retina e visão. Os ouvidos já estão formados. Agora você já tem os braços e pernas completos. Se sua mãe ainda não sabia, agora ela já começa a desconfiar que está grávida. A menstruação já atrasou demais. Aparecem os enjôos, as tonteiras, e você já ocupa o seu lugarzinho na sua barriga. Você já tem uns 35 dias de vida.
Da sexta à oitava semana, todos os seus órgãos aparecem. A cabeça se completa. O rosto, a boca e a língua são formados. O cérebro está completo. O que será que você anda pensando? Que grande mistério. Você já responde a cócegas. Você tem todos os dedos das mãos e dos pés — até mesmo impressões digitais, que serão as mesmas de quando você tiver 80 anos.
Da décima à décima-primeira semana, todos os sistemas do seu corpo são colocados em funcionamento. Os nervos e os músculos estão sincronizados. Os braços e as pernas movem-se. As unhas estão aparecendo. Você já possui um peso considerável.
Três meses: Você andou rápido. Já está prontinho, formado. Agora, você só tem que crescer. Mas o que você não sabe (será que não sabe? Será que sua proximidade da mãe não lhe permite “sentir” o que se passa no interior de sua mãe?) é que sua mãe e o médico, ou, quem sabe, uma parteira do bairro, já estão combinando como matá-lo. Discutem se será:

  1. •pelo método de sucção, no qual você sairá aos pedacinhos;
  2. •pelo método da curetagem, que o cortará em pedaços dentro da mãe, para depois ser tirado;
  3. •pelo método cirúrgico, no qual você é retirado inteiro, para depois morrer, ou
  4. •pelo envenenamento salino, quando uma solução salina é injetada na bolsa aminiótica, e você morre cauterizado.

Pode ser por algum outro método. Todo dia alguém inventa um jeito novo.
E eu fico me perguntando se a ética dessas decisões não são mais ou menos parecidas com a do caçador, que diz que dá chance de escapar à caça.

Balanço
Você sabia que este tipo de caçada:

  1. •mata mais pessoas que o câncer;
  2. •mata mais pessoas que todas as guerras até hoje;
  3. •mata mais que o trânsito;
  4. •mata entre 4 e 12 milhões de crianças por ano1, dos quais 400 mil resultam em morte da mãe?
  5. •faz do Brasil o campeão mundial de abortos?

Caçador ou Predador?
Talvez seja leal da nossa parte informá-lo sobre os dramas e motivos de sua mãe, ao querer matá-lo. Aliás, ela diria que não está matando ninguém. Há uma diferença, entre abortar e matar. Abortar é, simplesmente, uma forma de se livrar de uma gravidez incômoda ou indesejada, ou de alto risco. O uso da expressão “matar” — argumentaria ela — é uma radicalização daqueles que são contra, por motivos religiosos, políticos, moralistas, filosóficos etc.
Então, eu pergunto a você, leitorzinho, que está aí dentro da barriga da mamãe: que nome você daria? Também acha que tudo se resume num problema de semântica? De nomenclatura? De palavreado? Com a palavra, o feto: você.
É de justiça, também, lembrar que nunca essas decisões são fáceis e indolores para sua mãe. Ela também enfrenta uma situação de grande angústia e sofrimento. Na grande maioria dos casos, carregará essa culpa pelo resto da vida. Talvez por isso, queira lhe dar essas explicações.
O primeiro motivo de sua mãe, pode ser o de que não tenha condições de criá-lo. Não tem condições econômicas. Uma mãe pobre, já no décimo filho. Você é o goleiro do time. E você vai morrer por isso. Qualquer dia desses, uma “amiga” da sua mãe virá visitá-la, com umas agulhas de costura bem compridas e outras ferramentas…
Pode ser que ela não tenha condições de criá-lo, também, porque engravidou jovem demais. Transou sem preservativo, ou, não se sabe porque, mesmo com ele, engravidou. Dez por cento das mulheres que engravidam, estavam “protegidas” por anticoncepcional2. De acordo com o IBGE, 1 milhão de garotas3 engravidam por ano no Brasil.
Neste caso, você veio a estar nesta situação porque sua mãe é uma pessoa liberal, sem essas “encanações” dos mais velhos. Acha que essas histórias de virgindade, castidade, são coisas de matusalém. E seu pai concorda (para cada aborto no mundo, há um homem co-responsável). Sexo tem que ser livre. Contanto que haja amor. E assim entrou para a estatística das mais espertas e desencanadas adolescentes do ano. Competindo apenas com mais 999.999 colegas brasileiras. Um exército de garotas, acompanhadas por um exército de garotos, que acham que sabem muito bem o que estão fazendo. Por causa disto, você vai morrer. Infelizmente, ela não vai querer parar de brincar agora, tão cedo.” É muita responsabilidade para assumir agora: preciso viver, estudar, passear etc.”.
O segundo motivo que sua mãe poderá lhe apresentar, para ver se você a perdoa pelo que vai fazer, é que você, se chegasse a nascer, seria odiado. Você é resultado de um estupro. Neste caso, inclusive, a lei concorda com sua morte. O raciocínio é mais ou menos o seguinte: há casos em que o nascimento é pior que o aborto; e um deles, é ter que carregar, a vida toda, o peso de ser um peso. Ser rejeitado e não-amado desde a concepção. Você não teria um parto — seria simplesmente expelido. Se nascesse, você não teria o colinho da mamãe, nem seu leite, nem ouviria sua voz cantando cantigas de dormir. Seria visto como um monstro. Resultado de uma monstruosidade sofrida por sua mãe.
Você, que a estas alturas já tem o cérebro formado, pode estar se perguntando: mas por que ela tem que me rejeitar? Não poderia tentar me amar? Ao menos como um inimigo, conforme prescrevem as Escrituras? Ela não poderia, em resposta ao que sofreu, me dar a vida? Gostar de mim?
Meu irmãozinho, se você chegasse a nascer, compreenderia como é complicado o coração humano. Esse tipo de “volta por cima” que você está sugerindo só acontece por milagre. Algumas vezes acontece. Se sua mãe tiver aprendido alguma coisa sobre adoção, a adoção de Deus, o amor paternal dele, seu sacrifício na cruz, então, talvez você tenha alguma chance. Mas não espere muito por isso.
O terceiro motivo é bem mais sério (algum aqui não é?): sua mãe — e o médico — tem que escolher entre você e ela. Gravidez de risco. Se você nascer, ela pode morrer. E a probabilidade de que morram os dois é grande. Uma variante desse motivo é que você está sendo mal formado por problemas com sua mãe ou com a gravidez. Vai nascer com muitos problemas, se o pior não acontecer. E isso tem que ser resolvido agora, enquanto você está bem pequenino. A lei garante à sua mãe o direito de correr o risco de ir com você até o fim. Há casos em que crianças no seu estado nasceram saudáveis, e a mãe sobreviveu. Mas o que você sugere? Vamos tirá-lo? Acha que recusar-se a “cooperar” é muito egoísmo de sua parte?

Adeus, irmãozinho
Irmãozinho, agora que você já sabe porque vai morrer, o que acha da idéia? Que acha dos motivos apresentados por seus pais?
Certamente, estará se perguntando: — Será que eu também seria assim, se chegasse a nascer? Será que cresceria e teria essa cabeça doida? Esses valores tão confusos? Será que eu também tentaria convencer meu filhinho do injustificável? Será que eu também jogaria sobre ele todo o peso de uma sociedade que brinca com a vida — e com a morte? Será que valeria a pena nascer numa sociedade assim?
O fato, irmãozinho, é que essas coisas chegaram ao ponto em que estão, porque temos nos perdido nos caminhos da vida. Originalmente, Deus não nos fez assim. Mas isso não é de hoje. No Brasil, em particular, onde você foi concebido, somos campeões mundiais em muitas coisas. Se você nascesse, entenderia o que é ser um “tetra”. Mas saberia também que somos o povo mais esperto do mundo.
Para não fugir do nosso assunto — seu destino —, somos campeões mundiais da sensualidade. Nossas mulatas e “loirudas” fazem sucesso no mundo inteiro, mostrando esse seu “dom”. Nossos meios de comunicação de massa alardeiam a todos os ventos nossa irreverência e sensualidade como sedimentada identidade nacional. Estilo de vida, entende? Somos “quentes”, somos livres, somos ótimos. Venha para o Brasil. Aqui, tudo pode acontecer (abaixo do Equador e debaixo do cobertor). Quer vender um livro? Uma geladeira? Um amortecedor de carro? Coloca uma mulher bem sensual, insinuante, dessas bem brasileiras, que só dizem “sim” (incrível, que tantas mulheres aceitem ser vistas e tratadas assim, em plena luta por igualdade). Quer fazer um cinema encher? Diga que o filme é sensual e irreverente. Quer ser um cara simpático e legal? Diga que vive sob o signo descontraído e fálico do “Casseta e Planeta”. Todos vão dar um risinho “cult” e conivente. Você é impossível, mesmo.
Temos tido muita certeza sobre como conduzir nossas relações amorosas e sexuais; temos tido muita certeza sobre o que é “careta” e o que não é; estamos superseguros sobre “o que é bom para mim e os outros que se danem”; sabemos tudo sobre o uso do nosso corpo — sem essa de promiscuidade; sabemos tudo sobre família, casamento, profissão, lazer, uso de dinheiro, bebidas etc. Sempre orientados e tutelados por uma mídia absolutamente sem limites, sem horários, sem vergonha, sem caráter e sem patriotismo.
Mas a quê nos tem levado toda essa displicente arrogância nacional? Bem, é uma longa história, irmãozinho; um dia a gente conversa sobre isso. Mas uma coisa podemos dizer. Este ano, novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove irmãozinhos seus vão ser assassinados por suas próprias mães. E o milionésimo, infelizmente, será você.

Notas
1 A incrível imprecisão dos números está relacionada ao fato de que são quase impossíveis as estatísticas a esse respeito. A grande maioria dos abortos é feita escondida, longe dos hospitais.
2 O Relatório de 1983 do Departamento de Saúde de Minnesota, EUA, diz que 48,8% das garotas entre 15 e 17 anos que tiveram abortos, sabiam sobre métodos anticoncepcionais e os usavam (irregularmente). Outros 9,7% estavam usando anticoncepcionais quando engravidaram.
3 Entre 14 e 17 anos de idade.