Estudo sugere que genética influencie na percepção musical — Este é o título de artigo publicado no G1 e também no Correio Braziliense, recentemente <http://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2011/02/estudo-sugere-que-genetica-influencie-na-percepcao-musical.html>.

O diário de Brasília relata um teste interessante: selecionaram centenas de gêmeos e os submeteram a um teste de audição, que consistia em perceber uma nota desafinada em passagem musical. Enquanto no grupo de controle a percepção acontecia de acordo com uma certa média, entre os gêmeos, essa percepção era consistentemente em duplas. Ou seja, entre os gêmeos, se um percebia o defeito musical, o outro também percebia, sendo o inverso também verdadeiro.

Esse estudos sugerem uma base genética para a habilidade musical. Falam, por exemplo, das famílias de músicos, onde, até há pouco, se pensava que essa habilidade fosse aprendida, herança. Mas agora tendem a explicá-la por outro ângulo: um gene comum, o AVPR1A. Não deu outra: entre os músicos famosos se encontraram irmãos e irmãs não tão famosos, mas igualmente fenomenais. Apenas ofuscados pelo gênio da família.

Amusia

 

O que achei interessante é que os relatos de pesquisas em andamento dão conta de que tal aptidão, recebida geneticamente, está relacionada a uma área do cérebro encarregada da comunicação social. E fico a pensar: teria Deus nos habilitado, geneticamente, à adoração? Uma capacitação, tão especial quanto misteriosa, de relacionamento entre criatura e Criador? Seria essa habilidade manifesta por meio de uma especial competência emocional, que permitisse a “comunicação do coração”? Competência para perceber e reproduzir, ou mimetizar, como dizem os especialistas?

Não sabemos muito, ainda, sobre isso. Mas as perguntas já começam a surgir. E Deus não tem ficado de fora desses questionamentos. Se chegaram a batizar o bóson de Higgs de “partícula de Deus”, não demorará muito para que alguém sugira que o gene do receptor de vasopressina 1ª (AVPR1A) seja o “canal do coração” ou o “portal para Deus”.

Aquela conversa deve ter sido frustrante para os discípulos. Mas para nós, passado tanto tempo, ainda é luz.

Jesus lhes diz que vai preparar-lhes lugar; e que sabem o caminho (Jo 14.4).

Nesse momento, o prático Tomé se exaspera e fala como o Gato, de Alice: “Como saber o caminho, se não sabemos aonde vais?”.

Ai! a resposta torna tudo ainda mais difícil: “Eu sou o caminho; ninguém vem ao Pai senão por mim”.

Posso senti-los se entreolhando. Filipe tenta aliviar: “Mostra-nos o Pai, e isso nos basta”. Porém não dá certo; o Mestre retorna ao argumento principal, agora mais enfático: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: mostra-nos o Pai?” (Jo 14.9).

Como poderiam aqueles homens rudes imaginar o alcance dessas palavras? Como suporiam que o Mestre, que se apresentava como caminho, fazia uma síntese de sua missão, envolvendo motivações, modos de agir, sentir e pensar, além de revelações sobre Deus e os homens?

Como poderiam supor que, ao fazer-se caminho, ele esperava que seus discípulos tivessem “o mesmo sentimento” que ele? Que entre eles tudo brotasse de um “amou de tal maneira” e que absolutamente tudo desaguasse em um “que deu”?

Como poderiam imaginar aqueles homens rudes que, para além das palavras das Escrituras, Deus se faria um menino de manjedoura e, ao final de tudo, venceria o mundo e o maligno como uma “ovelha de matadouro”, para revelar-se — a quem tivesse olhos para ver — um leão?

Como poderiam imaginar aqueles homens rudes que seu Mestre esperava que eles, ao compor seu corpo, tudo fizessem por amor? E que, se esse amor que nasce misteriosamente — mas que se derrama concretamente em gestos de renúncia e serviço — não fosse a motivação de tudo, nada seria? Mesmo que dessem seus próprios corpos para ser queimados, nada seria? O que significa que não estariam nele, no caminho?

Como poderiam imaginar que sem ele nada poderiam fazer? E que, após sua partida, ainda edificariam uma igreja, ainda articulariam membros para produzir o crescimento de um corpo, na base do alegre e anônimo serviço sacrificial? Sim, que o crescimento se daria, quase imperceptivelmente, por meio de atitudes e sentimentos tão sutis quanto ternuras, afetos e misericórdias? Com cânticos e ações de graça?

Era informação demais para o momento. Precisariam de tempo e de discernimento — do Espírito que viria. Precisariam aprender a morrer, “o dia todo” para, então, chegar ao seu destino, ao fim da caminhada, ao início de tudo — o Pai. Ou melhor, os braços do Pai.

E imaginar que tais cogitações nos chegam, passados dois mil anos, e nos encontram aturdidos e ansiosos com relação ao futuro da igreja do Senhor!

É tempo de voltar nossa atenção para o menino, em sua fragilidade.

Um menino se nos deu! Onde a soberba? E os títulos? E os cargos? E a sabedoria secular? E o domínio sobre mentes e almas? Onde as técnicas? E as organizações? E os métodos? E as planilhas? E os sistemas? E a mídia? E as cifras? E o sucesso?

Não, a mensagem que celebramos é de outra natureza; ao mesmo tempo singela e poderosa — naquela manjedoura está o nosso caminho: amou de tal maneira que se deu (Jo 3.16). O que passa disso… bem, é outro caminho.

 

Este artigo foi publicado na Revista Ultimato, nº 339.

O apóstolo Paulo nos informa que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo e que nos deu o ministério da reconciliação, fazendo-nos seus auxiliares nessa missão gigantesca (2Co 5.18-20).

Em que consiste essa comissão? Como cumpri-la, se nem sequer compreendemos seus mecanismos?

Pensei em puxar o fio da meada investigando o mistério da graça de Deus, mas achei a tarefa difícil demais. Optei, então, por partir das nossas próprias experiências, com o auxílio da Palavra.

Eis uma lição prática, de Jesus: “Deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta” (Mt 5.24).

Sempre reverente diante do mistério, gostaria de extrair três lições dos dois textos bíblicos mencionados. E depois refletir sobre elas.

A primeira lição é que Deus se envolve com as brigas de seus filhos. A tal ponto que toda ira, separação ou ruptura assumem uma dimensão triangular: eu, meu irmão (ou inimigo) e Deus. “Quer me agradar? Então vá e se acerte com seu irmão; então volte e me ofereça esse gesto. E isso me será agradável”.

A segunda é que tanto o “devedor” quanto o “credor” estão envolvidos nesse triângulo, sem que o comportamento de um seja condição para o do outro. A um Deus diz: “Deixa no altar a tua oferta e vai procurar teu irmão”; a outro diz: “Se teu irmão te procurar, arrependido… perdoa”. Mais ainda: “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer… abençoa”.

E a terceira lição é: quando Jesus me diz para deixar no altar minha oferta e procurar meu irmão, não esclarece se vou na condição de “devedor” ou de “credor”. Se eu me lembrar que ofendi meu irmão, devo procurá-lo para pedir-lhe perdão; mas o que faço se me considero “credor”? Devo procurá-lo, mesmo assim? Nesse momento, me vem à mente nosso exemplo maior. Não foi isso que Deus, em Cristo, fez? (Fl 2.7). Na encarnação, o ofendido nasceu, como criança, entre seus ofensores. E seu ministério entre nós envolveu o bater às portas…

Porém — dirá você –, e se aquele a quem ofendi nem me receber? Ou se meu ofensor me disser que nada me deve? E se eu achar que não devo nada ao irmão que me procura dizendo que o ofendi?

Sugiro que, neste momento, alcemos voo da fria mecânica do perdão para a dimensão da graça e do poder de Deus. Aqui, a triangulação se torna essencial. E a resposta que encontro a essas perguntas é uma só: oração. Passo a orar pelo irmão a quem ofendi, ou pelo irmão que me ofendeu, ou mesmo pelo irmão que diz que eu o ofendi. Oro para abençoar. Passo a orar insistentemente, inclusive por mim mesmo, pedindo que Deus me dê condições de prosseguir.

Primeiro, peço o bem; em seguida, desejo o bem; e, finalmente, disponho-me a ser agente ou canal desse bem. Eis uma progressão emocional misteriosa. A princípio, cheia de impossibilidades. Contudo, prossigo em obediente oração. Se meu irmão não me perdoa, vou a Deus e oro por ele; se meu inimigo não me recebe, diante de Deus lhe ofereço “perdão liminar” (perdão a quem não o pediu). O resultado de tudo isso é o triângulo funcionando; e o ministério da reconciliação em curso.

“Mas nada mudou! Eu orei tanto…” — alguém poderia dizer.

Nada mesmo? Observe melhor seu coração. E veja o que Deus já fez.

 

Este texto foi publicado na Revista Ultimato nº 338.

Compartilho o vídeo (Full HD) da gravação do cântico “Glória Ao Que Venceu”, já no site da IPP, como áudio, playback, cifra, letra etc. Agora, tendo recebido doToninho Zemuner a gravação de vídeo, dei uma penteada e lá vai. Agradecemos ao David Franklin Caldeira a colaboração com nosso projeto musical. A voz dele caiu como uma luva para esta música.

 

Aproveitando a polêmica decisão do governo paulista de internar usuários de crack à força, gostaria de voltar a pensar sobre um problema que já travessa séculos — uma disputa entre os arminianos e os calvinistas. Correndo todos os riscos da simplificação, descrevo-a assim: se Deus é soberano (como afirmam os calvinistas), o homem não tem livre-arbítrio; é marionete de Deus. Se, por outro lado, o homem pode rejeitar a Deus, e inclusive perder sua salvação (como afirmam os arminianos), então, como fica Sua soberania? A disputa vai longe, uma vez que os dois lados (arminianos e calvinistas) estão munidos de versos bíblicos perfeitamente contextualizados.

Louis Berckhof nos sugere que se duas afirmações bíblicas, em seus contextos, parecerem contraditórias entre si, afirme as duas, pois elas se resolvem em plano superior. Um exemplo é o texto de Paulo aos Romanos, 9 a 11, onde ele contrapõe a responsabilidade de Israel à afirmação de sua soberania aplicada ao caso de Esaú e Jacó.

Os arminianos e calvinistas mais combativos não seguem o conselho de Berckhof. Escolhem um lado e lutam por ele, apaixonadamente. Talvez essa paixão explique o fato de ainda não termos chegado a uma melhor compreensão do tema, tachando-o, quando muito, de paradoxal, ou de insolúvel. A Confissão de Fé de Westminster afirma, em uma mesma frase, que o homem está morto para escolher, mas tem livre-arbítrio.

Assim, à busca do referido “plano superior”, compartilho meu modo de ver esse problema. E já pergunto: e se Deus, em sua misericórdia e soberania, determinasse que o homem poderia decidir sobre amá-lo ou rejeitá-lo? E se Deus nos tivesse feito assim, considerando isso o cerne da “imagem e semelhança”? Uma criatura absolutamente livre, no que concerne à sua possibilidade de amá-lo ou não? Nesse caso, qualquer que fosse a resposta humana, estaria dentro das possibilidades previstas (e determinadas) pelo Criador. Pois bem, entendo que o Gênesis nos relata exatamente isso. E essa compreensão se reflete na própria Confissão de Westminster, capítulo III: “de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas”.

Resta, no entanto, um embaraço bíblico: Efésios 2 nos diz que o uso que fizemos (em Adão) da liberdade nos levou a uma escravidão tal que, se Adão foi livre um dia, o mesmo não ocorre conosco. O homem natural é escravo do pecado, de forma que sua vontade está aprisionada.

Bem, é aí que eu vejo a ligação entre a soberania de Deus e a liberdade humana. Ao invés de uma se contrapor à outra, harmonizam-se na mente e nos projetos do Altíssimo. Deixe-me explicar.

 

A balança

Imagine a situação humana como um fiel de balança. Adão foi feito com seu ponteiro no ponto zero, no prumo. Não pendia nem para a direita nem para a esquerda. É o que chamaríamos de livre-arbítrio. Mas Satanás se valeu de sua escolha desastrada e nos aprisionou a todos do lado esquerdo. Com cadeado. De forma que Efésios 2:1-3 fica retratado nessa situação. Não temos mais escolhas livres. Nosso “escolhedor”  está viciado, amarrado.

Então Deus, “por causa do grande amor com que nos amou”, e após nos ter revelado essa nossa condição desesperadora, encerrando-nos todos debaixo da desobediência (Rm 11:32), usa de misericórdia para com todos. Como?

Num determinado momento (ou período, ou fase, sei lá) de nossa vida, chamado pelo autor de Hebreus de Hoje , o Altíssimo se vale de seu poder e soberania e atua em nossas vidas, colocando nosso “fiel da balança” no centro de novo. Então, ele me diz: “escolhe livremente”. E a principados e potestades, diz: “ninguém interfere!” Nesse momento, por causa da soberania e do poder de Deus, e pela atuação de seu Espírito, somos livres; para aceitá-lo ou rejeitá-lo.

É importante ressaltar que, diferentemente do diabo, ele não leva nosso fiel para a direita total. Nem o amarra lá. Não. Ele é Senhor gentil: leva-o ao meio, onde exercitamos o “pendor do Espírito” ou o “pendor da carne” (cf. Rm. 8:5). E nos avisa que o pendor da carne é inimizade contra Deus (Rm 8:7).

Criei uma imagem, inspirado em C.S. Lewis. Qual das lâminas da tesoura corta o pano? Pois bem, aprouve a Deus que nossa salvação se fizesse por meio de uma “tesoura”. Deus se faz uma das lâminas, e nos atribui o papel da outra. Sem ele, estamos no inferno. Sem a nossa, estamos no inferno. Isso não nos iguala a Deus, pois jamais poderíamos, nós mesmos, construir essa tesoura e “cortar o pano”. Ele permanece no seu santo trono. Soberano. Justo, reto… e misericordioso.

Terminando o argumento, acho que é por isso que Jesus ensina a mulher samaritana que Deus procura alguma coisa. Procura verdadeiros adoradores. Criou a tesoura e espera que ofereçamos nossa lâmina, para nosso bem.

 

Uma Parábola

 

Na em 1996, a televisão levou ao ar uma reportagem sobre o uso de crack pelos adolescentes (e o assunto, hoje, virou epidemia).

Ao ver, na reportagem, o sofrimento dos pais e a luta ingente do drogado, lutando para se livrar das garras tirânicas da dependência, me ocorreu a seguinte parábola sobre esta questão da soberania divina e da liberdade humana. Ei-la.

Certo dia, um pai descobre que seu filho é um drogado, dependente de crack. Faz de tudo para ajudar o rapaz, mas este, ainda que lute para se desvencilhar, não tem mais forças para largá-la, e tenta se matar, inclusive para se livrar do complexo de culpa, pelo desgosto causado aos pais. O pai o acha a tempo (estava meio de olho), socorre-o e o salva.

Alguns dias depois, em conversa com o filho já convalesceste, propõe-lhe uma solução extrema. O pai tem uma idéia para devolver ao filho a força (o livre-arbítrio) para sair daquela situação. Propõe ao filho e este aceita.

Pegam um carro e vão, somente os dois, para um sítio isolado. Longe de tudo e de todos. Ali, tentarão lutar contra a droga, cortando lenha, subindo corredeiras, trabalhando pesado até caírem mortos de cansaço. O pai está atento e determinado a aguentar mais que o fragilizado rapaz.

No segundo dia, o jovem começa a mudar: a mostrar-se indócil, agitado, impaciente, nervoso, irado, truculento, violento. Ele precisa daquela droga. Seu organismo exige (seu “senhor” o está chamando de volta). O pai vai contemporizando, conversando, distraindo, sabendo que precisa ganhar tempo. Precisa, pelo menos, de uma semana (este é o tempo que os médicos estabelecem para a desintoxicação química do organismo).

No terceiro dia, o filho tenta fugir de noite, mas o pai, que a estas alturas está dormindo com um olho só, o intercepta. O garoto está transtornado. O pai o agarra. Este, cego por dores internas fortíssimas, agride o pai com fúria, e tenta correr. O pai se levanta e o alcança. Está determinado a ajudar o filho. Uma semana, é a meta. Faltam 4 dias ainda. Agarra o garoto, que tenta agredi-lo novamente. Mas desta vez o pai é quem o soca violentamente. O garoto cai desacordado.

O pai o leva de volta para a casa e o amarra na cama. Quando o rapaz acorda, começa a gritar, gemer, xingar, blasfemar, contorcer-se, desafiar o pai, dizer os piores desaforos. O pai tenta abraçá-lo, mas é recebido com cusparadas e palavrões. Uma noite de cão.

A estas alturas, imagino um calvinista dizendo: “aqui, o pai retirou o livre-arbítrio do menino”. E eu responderia: “que livre-arbítrio?”

Amarrado, o rapaz fica ali por mais quatro dias. Reclama de dores nas costas, de mau-jeito, de dores nas mãos, nos tornozelos, por causa das cordas. O pai, algumas vezes, tentou afrouxá-las, para aliviar o desconforto, para levá-lo ao banheiro, etc., mas ele tentou escapar. Foi preciso lutar, agarrar, bater de novo.

Bem, não vou me alongar nos detalhes deste transe medonho. O fato é que a semana se passa, e, ao raiar do oitavo dia, o garoto já não está mais suando, nem com cólicas, nem trêmulo, nem com dores na barriga. Passou. A dependência química está cedendo.

Nesse dia, logo pela manhã, o rapaz acorda com um cheiro de café coado na hora, broas de milho, pão, manteiga e outras guloseimas. Uma mesa posta. Ele estava quase de jejum, e se mostra faminto.

Então o pai o surpreende: chega na sua cama com um sorriso e desata-lhe as cordas. Solta-o e convida-o para o café. Ele toma um banho quente e se assenta à mesa. Está mais animado, e chega a balbuciar algumas palavras monossilábicas, em resposta às tentativas de conversa do pai. Está despertando de um pesadelo.

No meio do café, num gesto brusco, levanta-se e corre para a porta. Num segundo, já está lá na porteira. Mas estranha que seu pai não esteja ao seu encalço. Olha para trás e constata que ele ficou parado, na porta da casa. Desconcertado e curioso, ele para e arrisca uma olhada, como que a perguntar: você não vai me prender?

O pai, entendendo a perplexidade do filho, grita de lá: “filho, Hoje você é um rapaz livre. Das drogas e de mim. Você volta para elas se quiser; volta para mim se quiser. Filho, não quer terminar o café?”

Está chegando o Natal e começaremos a ouvir, aqui e ali, que “uma criança os guiará”, ou “um menino os guiará”, citando versões de Isaías 11:6.

Essa “teologia da criança” requer um sentido bem restrito: a criança como modelo de espiritualidade, apresentado por Jesus (Mt 18:1-6). Perfeito (não serei eu a criticar o Mestre). Mas proponho que tomemos cuidado para não fazermos uma leitura romântica de Isaías. Por exemplo, ouvi alguém dizer que seremos guiados e governados por uma criança. Fui cuidadoso e não perguntei: “como assim?” Mas fiquei sem saber o que a afirmação queria dizer.

A criança que me vem à mente cresceu, sofreu e morreu. E quando recebeu toda a autoridade, e o governo foi posto sobre seus ombros, já não era uma criança. (Alguém poderá complicar: “qual é a idade de um corpo glorificado?” Ou então: “e aquela criança que existe dentro de nós?”. Bem, aí não sei).

Mas quero contar uma coisa bem pessoal. Fui criado por um casal, meus pais.

“Tá”, dirá você.

O detalhe é que meu pai tinha (e ainda tem) um coração de criança e minha mãe era (e ainda é) uma adulta.

Olhando para trás, vejo que minhas melhores recordações advêm mais do meu convívio com o “educador-criança” do que com o “educador-adulto”. Bem, pode ter a ver com o fato de que o “educador-criança” não é disciplinador, repressivo, punitivo. Nem ao menos crítico. No máximo, manipulador, num sentido bem ingênuo do termo. As crianças são manipuladoras. Então, ser “guiado por uma criança” foi o lado gostoso da minha formação infantil e adolescente.

Se você aceitar uma metáfora imperfeita, esse lado gostoso era como a sobremesa de uma nutritiva refeição (aquele prato cheio de legumes, verduras, soja, peixe, rabanetes, jilós, quiabos e outras delícias detestáveis). O gostoso era outra coisa; era o doce que vinha como prêmio para quem rapou o prato.

Fechando: não sei o que seria de mim se tivesse sido guiado apenas por um menino. Talvez estivesse comendo docinhos até hoje. Obeso e desnutrido. Uma metáfora para “perdido na vida”, como toda “criança entregue a si mesma”. Talvez tivesse me mudado para a Terra do Nunca. E certamente hoje seria vergonha para minha mãe, como sugere o Pensador (Pv 29:15).

Pense aí. Se decidir reagir — e eu puder escolher —, prefiro críticas pueris.  🙂

 

 

Ouvi recentemente, no rádio, uma entrevista com famosa obstetra sobre depressão neonatal. Ela apresentava ma abordagem diferente dos costumeiros critérios de Apgar, causas de problemas pós-parto. Dizia que os recém-nascidos podem ficar tão deprimidos que têm apneias ou até  paradas cardíacas, além de distúrbios de sono, falta de fome etc., problemas que podem levá-los à morte.

Me impressionaram as causas “sociais” apresentadas pela doutora. Enquanto no útero, a criança está na penumbra, aquecida, com liberdade de movimentos, ouvindo a voz e os sons da mãe. Ao nascer, se é separada da mãe por problemas, tais como incubadora ou tratamento de alguma complicação, deixa de ouvir a voz da mãe, perde os movimentos, é manipulada por estranhos, ao ser amamentada; não enxerga o rosto da mãe, nem ouve a sua voz.

Esse estado de abandono lhe causa uma apatia, uma desistência de viver, e ela pode ir a óbito. Nas palavras da doutora: “ela já não olha para quem a alimenta, já não procura por comida, com aquele grito forte; no máximo chora baixinho, ou geme”.

Depressão. Pode?

E eu fico pensando se a humanidade não desenvolveu na alma uma depressão parecida, oriunda da nossa expulsão do Éden, que entendo como o parto da humanidade. Uma espécie de falta de ânimo existencial. Ou uma falta de alma, se preferir.

Sim, já não estamos mais naquele ambiente de amor, de ouvir a voz do Criador (metaforicamente nossa mãe); já não temos a liberdade de movimentos que tínhamos antes da tragédia. Agora estamos amarrados por panos que nos tolhem até os sonhos; muitos já não ouvem mais aquela voz à qual estavam acostumados desde que “se entendem por gente”; muitos já não são mais acalentados por ela, mas por outras vozes (na maioria eletrônicas); e adormecem ouvindo as “cantigas do Egito”.

Agora precisamos “ir à luta” e comer do suor do nosso rosto. Agora estamos sozinhos, em meio a estranhos. Muitas vezes sendo cuidados por eles. Para fazer contato temos que superar muitas barreiras, além do nosso próprio silêncio; além da nossa própria inabilidade congênita, proveniente da desconfiança. Já aprendemos que o amor nos torna vulneráveis. Algumas dessas barreiras simulam a própria vida, com intervalos comerciais, claro.

Talvez seja por isso que às vezes sonhamos com o céu. Ou que sentimos saudade dele. Talvez seja por isso que certos momentos familiares como os encontros do Natal; ou eclesiásticos como reuniões com irmãos, com quem tenhamos desenvolvido longa e profunda amizade, nos falem tanto de eternidade. E chegamos a dizer (e cantar): “é céu aqui”. Estamos dizendo: “é o Éden de volta”. Claro, um vislumbre da glória; passada e futura. Da passada, temos saudade; em relação à futura, temos esperança.

A depressão produz efeitos variados nas pessoas. Mas um sintoma comum é o desânimo. Perde-se a vontade de levantar pela manhã. Tudo fica difícil; nada vale a pena.

Houve um tempo em que tomei a famosa “Erva de São João”. É o Hipérico, um anti-depressivo natural. Ele atua de tal forma que certas motivações, que começavam a esmorecer, retornam, e os projetos e ideias voltam a valer a pena. E a gente se lança a eles, empreendendo esforços e mantendo o ânimo por longo tempo. Tornamo-nos longânimos.

Penso que o Evangelho atua assim, também, sobre nossa depressão existencial. Entretanto, ele vai mais fundo que o Hipérico; ele restaura a “esperança da glória”. Mais que isso, ele nos traz de volta muito do que foi perdido no Éden. E nos aponta para a plenitude de sua restauração. Mas já não o antigo Éden natural; porque a ordem das coisas é essa: primeiro o natural; depois o espiritual. De modo que a segunda criação, em Cristo, seja em tudo superior à primeira.

Até que nossas almas, saciadas de intimidade, já não sintam mais a separação. Porque, no seio de Abraão, esta já não existirá.