Seja verdade tudo o que você disser; mas nem tudo o que é verdade deve ser dito. Não diga tudo o que pensa, mas pense em tudo o que vai dizer. Porque falar sem pensar é o caminho da ruína. Mas pensar sem falar traz tristeza ao coração.
Nem tudo o que você pensa ou planeja deve ser compartilhado — a não ser para os amigos, porque “esconder o leite” é um artifício de poder que cobra o preço da superficialidade relacional. Ninguém quer ser amigo de uma “caixa preta”. (João 15:15)


O caminho para o coração de uma pessoa é como um mapa do tesouro, e requer a decifração de pelo menos três enigmas: os sonhos que ela não conta (porque esquece quando acorda), os anelos sobre os quais não conversa (porque não se expressam em palavras, mas em silêncios) e os valores que não negocia (porque lhe foram insculpidos na alma). Quem decifrar esse coração chegará ao tesouro da sua intimidade. Talvez, até, do amor.

Meu telefone deu defeito. No conserto, descobri que sairia mais barato comprar um novo. Minha máquina de lavar não deu mais, depois de 25 anos. Troquei. Mas a nova, com cinco anos, já começa a pedir conserto.

Comprei um computador novo, pela Internet. Último tipo. Mas quando a encomenda chegou ele já estava ultrapassado. A oferta de novos computadores de mesa, no Brasil, subiu de 476, em 2009, para 835, em 2011.

A taxa de obsolescência aumenta à medida em que a taxa de inovação se acelera e o processo de produção fica mais barato. Fred Seixas, gerente da LG, afirma que o tempo das coisas está, de fato, menor. “A gente observa que o intervalo de troca de refrigeradores e lavadoras de roupa, que era de dez anos na década de 1990, hoje está em cinco ou seis anos”, diz.

Inevitavelmente, esses fenômenos pós-modernos têm efeito sobre nossas almas. Já sofremos transtornos provenientes da idade dos móveis, dos aparelhos, da decoração da sala. Temos vergonha de dizer o ano do nosso carro; e quando compramos este celular. Encontramos amigos antigos e ficamos constrangidos de dizer que ainda moramos naquele mesmo endereço — “você ainda mora lá?! (Matusalém!)”.

Temos dores de abstinência se não checamos nossos emails a cada dez minutos, ou nosso celular a cada minuto. O celular ligado tornou-se vital. E no culto, são poucos os que o colocam no modo silencioso. Afinal, corremos o risco não ouvir a chamada, distraídos que estaremos com a oração.

À mesa, com os amigos, tuitamos, pelo celular, com outros amigos. Mais que um conviva chato, incomoda-nos a ausência de mensagens. Então, se ela não chega, nós ligamos. Só para agitar. Só pra fazer alguma coisa.

De repente, essa obsolescência das coisas quer contaminar também nossas relações. E buscamos amigos novos em folha. Já não temos resistência para longas amizades, do tipo “de infância”, “casamento”, família etc. De repente, precisamos mudar, trocar. Afinal, a fila anda.

Ainda não sabemos bem como é este “dia” que chamamos de “pós”. Se soubéssemos, não o chamaríamos assim. Pós-modernidade é o tempo que sucede a modernidade. Mas ainda não temos um nome para ele. Segunda-feira é o dia que sucede o domingo. Se estivéssemos vivendo a primeira segunda-feira de nossas vidas, talvez a chamássemos de pós-domingo (em que houve uma feira).

Mas como discernir esse tempo tão louco e… gostoso? Na dúvida, precisamos preservar o essencial, até compreendermos bem o que ele traz de bom ou de perigoso. Seu computador ainda lhe atende? Fique com ele. Sua lavadora está nova? Fique com ela. Seu marido…

Eis um tema para a Escola Dominical. Já tenho o verso áureo: “e não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus” (Rm 12: 2). Que século? Que fôrma? Que “trans-fôrma-ção”? A Bíblia nos ensina que fomos feitos seres relacionais, que se assentam à mesa, com o Pai e com os irmãos, num imenso banquete, servido de pão e de vinho. Comunhão é da nossa essência e identidade. E para isso o pão se partiu e o vinho se verteu.

Decifremos, então, este dia, tateando no claro; tendo o essencial como referência. E se este século nos propuser obsolescência e superficialidade naquilo que faz parte da nossa constituição espiritual, digamos-lhe não. Isso será sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; um culto racional. Eis um caminho; a ser percorrido — de joelhos.

“Roubo de Veículos cresce 82% no DF”. Esta é a notícia que leio hoje, no Correio Braziliense. O sentimento é de que serei o próximo. De novo. Não será a primeira, nem segunda, nem terceira vez. Nem quarta. Nem… melhor parar, você não vai acreditar mesmo… Não levam o carro; apenas o rádio e o estepe. E deixam tudo quebrado, para você consertar.

Minha opinião é que estamos vivendo um apagão governamental no DF. Talvez no Brasil todo. O Estado já não tem mais dinheiro para fazer o que deve (educação, saúde e segurança). No entanto, temos uma das maiores cargas tributárias do mundo. A pergunta que não quer calar é aquela que não vou fazer aqui. Pior, todo mundo sabe a resposta para ela.

Ideias sem pé nem cabeça também pode ser desabafo, não?

A propósito, ao “colega” da foto abaixo, recomendo paciência. 😉

 

Tenho pensado sobre comunhão. Um tema caro aos cristãos. Tenho pensado sobre a Aliança. Um tema associado. Não há como pensar num e esquecer o outro. Como decorrência, tenho pensado no desafio que a comunhão, dentro da Aliança, representa para mim, hoje. Explico-me.

            Vivemos um delicioso tempo de liberdades. Sem grandes amarras sociais, sem controles, sem censuras, sem intromissões. Vivemos como queremos. Se alguém chegar perto demais, dizemos: “dá licença?!”

           Bem, isso também encerra qualquer conversa mais, hã, “quente” (no sentido de íntima, pessoal). Se dizemos isso para um colega de trabalho, ok, morreu; mas se dizemos isso para um pai, uma mãe, ou um filho, encerramos a conversa, do mesmo modo e preservamos nosso espaço. E ainda restará, como efeito colateral, um desencorajamento a se voltar a esse assunto. Ou mais ainda; um aviso de que não gostamos da, hã, “proximidade” exagerada.

            Esse tipo de “chega pra lá” não era possível, quando eu era criança. Houve muitas mudanças sociais, de lá para cá. Entramos na pós-modernidade, e uma de suas características é essa liberdade meio que suicida. Não a acho ruim. Acho-a perigosa, como um remédio-veneno (a diferença é só de dosagem).

            Se nos acostumamos a viver no nosso espaço; e o fazemos inviolável, fazemo-nos um pouco avulsos, também. Se ninguém pode chegar perto demais, acabo me tornando órfão. E essa orfandade me torna só. Um pouco perdido. Um pouco vulnerável à rapina.

            Pior; se me lambuzo do melado do “dá licença”, perigo perder de vista todo o patrimônio simbólico da Aliança. Ele se vai com o rompimento dos pactos e práticas ligados à comunhão. Trazemos as coisas em comum para uma superficialidade que não nos incomode.

            Nesse momento, ao celebrarmos um casamento, por exemplo, prometemos sem nos comprometer; juramos de dedos cruzados, queremos mais a estética. Ao tomar o pão e beber o cálice, esperamos por bênçãos, sem saber exatamente o que isso significa. Certamente, não significará sacrifícios, pois sacrifícios relacionais não estão entre as bênçãos por nós desejadas.

            Vamos em frente, em nosso cristianismo eclesiástico. Só que, com mecanismos de defesa acionados. Se os irmãos chegarem perto demais, já sabemos o que fazer.

            Ouço Paulo dizer, aos Efésios: “até que todos cheguemos à perfeita varonilidade, à amedida da estatura…”. E trocamos por “até que todos cheguemos à perfeita liberdade, à diversão total…”

            “Gostosuras ou travessuras”, é o nosso lema pós-moderno. Aliança por Haloween. Completamos o kit trocando Natal por presentes e Páscoa por ovos de chocolate. Ai, que delícia. 😉

            Desculpem. Foi um desabafo.  🙂

Estêvão e Ana, meus filhos, interpretam, hoje, uma canção antiga: Partida. Essa canção foi composta quando a nossa igreja, IPP, teve de sair das instalações SIL, em 1996, depois de ter estado lá por 15 anos. Partimos para o futuro, como o povo de Deus partiu para Canaã.

 

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Deus estava, em Cristo, evangelizando o mundo. Esta boa nova, certamente, não era desconhecida, insuspeita; já havia sido profetizada muitas vezes e de diversas maneiras. A encarnação aconteceu na história, resultado de muita preparação; na plenitude de tempos e movimentos de homens, anjos e do próprio Deus.

Entretanto, Deus estava, agora, consumando seus propósitos, concebidos em tempos imemoriais. Oferecia-nos a sua reconciliação, a sua paz, por meio do estreitamento dos laços, da proximidade, de gestos de amor dadivoso.

Sim, agora seu método seria o de se fazer um conosco, por meio de seu Filho, achado em figura humana. Emanuel. As distâncias insuportáveis a quem ama foram eliminadas e o único imponderável seria se lhe permitiríamos tal proximidade, se o aceitaríamos em nossos espaços íntimos, se o receberíamos em nossas casas.

Talvez fosse esperar demais de gente que lhe dera tantas provas de soberba e independência. Seríamos capazes de abrir mão da nossa aparente autonomia para aceitar seu senhorio? Não seria esse um plano destinado ao fracasso? Não haveríamos de rejeitá-lo para preservar nosso maior tesouro, o nosso ego?

Sim, talvez fosse um plano maluco. Entretanto, há que se considerar o amor com o qual nos amou. Um amor tal que o moveu a dar-se. E assim fez. Vimos o menino, conhecemos o homem e contemplamos a cruz. Nela estava a prova cabal desse amor quase incompreensível. Se considerarmos as perspectivas de reciprocidade, as chances eram pequenas.
 Deus estava, em Cristo, evangelizando o mundo.
Contudo, assim foi e assim se fez. E o que os nossos olhos viram, e as nossas mãos apalparam, isso nos transtornou. Como que por milagre, trouxe-nos nova vida. Porque ouvimos palavras de vida, porque nele estava a vida, sua luz nos iluminou. E isso quisemos anunciar.

Entretanto, se é assim o caminho da evangelização, e se aceitamos o encargo de sermos seus ajudadores, por que o fazemos tão à distância? Por que permitimos as separações físicas e emocionais que nos afastam do modelo? É bem verdade que as cartas, os livros, os sermões para as multidões e outros meios não foram invalidados. Serviram e servem ao propósito reconciliador. Porém, ficou provado que, se eram necessários, não foram suficientes. Foi preciso encarnar. A encarnação, essa sim, se mostraria necessária e suficiente.

Onde tem origem toda essa saga? No coração paterno amoroso e sacrificialmente dadivoso. Um coração disposto ao que for necessário para salvar alguns. Lavar pés, se preciso; enfrentar a morte, certamente (ambos foram requeridos).

Talvez a nossa preferência pela isenção afetiva esteja relacionada a uma equivocada percepção do Natal. E nossa imitação se enfraquece, pois já não sabemos ou não queremos amar como ele amou. Talvez já não compreendamos o quão essencial é o pulsar do coração por proximidade pessoal, por intimidade, para a evangelização evangélica.

Onde encontrar o ensino sobre uma atitude tão altruísta, profunda, integral? Examinemos, cuidadosamente, o Natal e a Páscoa. Esses eventos nos falam do amor de Deus em ação entre os homens.