Está chegando o Natal e começaremos a ouvir, aqui e ali, que “uma criança os guiará”, ou “um menino os guiará”, citando versões de Isaías 11:6.

Essa “teologia da criança” requer um sentido bem restrito: a criança como modelo de espiritualidade, apresentado por Jesus (Mt 18:1-6). Perfeito (não serei eu a criticar o Mestre). Mas proponho que tomemos cuidado para não fazermos uma leitura romântica de Isaías. Por exemplo, ouvi alguém dizer que seremos guiados e governados por uma criança. Fui cuidadoso e não perguntei: “como assim?” Mas fiquei sem saber o que a afirmação queria dizer.

A criança que me vem à mente cresceu, sofreu e morreu. E quando recebeu toda a autoridade, e o governo foi posto sobre seus ombros, já não era uma criança. (Alguém poderá complicar: “qual é a idade de um corpo glorificado?” Ou então: “e aquela criança que existe dentro de nós?”. Bem, aí não sei).

Mas quero contar uma coisa bem pessoal. Fui criado por um casal, meus pais.

“Tá”, dirá você.

O detalhe é que meu pai tinha (e ainda tem) um coração de criança e minha mãe era (e ainda é) uma adulta.

Olhando para trás, vejo que minhas melhores recordações advêm mais do meu convívio com o “educador-criança” do que com o “educador-adulto”. Bem, pode ter a ver com o fato de que o “educador-criança” não é disciplinador, repressivo, punitivo. Nem ao menos crítico. No máximo, manipulador, num sentido bem ingênuo do termo. As crianças são manipuladoras. Então, ser “guiado por uma criança” foi o lado gostoso da minha formação infantil e adolescente.

Se você aceitar uma metáfora imperfeita, esse lado gostoso era como a sobremesa de uma nutritiva refeição (aquele prato cheio de legumes, verduras, soja, peixe, rabanetes, jilós, quiabos e outras delícias detestáveis). O gostoso era outra coisa; era o doce que vinha como prêmio para quem rapou o prato.

Fechando: não sei o que seria de mim se tivesse sido guiado apenas por um menino. Talvez estivesse comendo docinhos até hoje. Obeso e desnutrido. Uma metáfora para “perdido na vida”, como toda “criança entregue a si mesma”. Talvez tivesse me mudado para a Terra do Nunca. E certamente hoje seria vergonha para minha mãe, como sugere o Pensador (Pv 29:15).

Pense aí. Se decidir reagir — e eu puder escolher —, prefiro críticas pueris.  🙂

 

 

Ouvi recentemente, no rádio, uma entrevista com famosa obstetra sobre depressão neonatal. Ela apresentava ma abordagem diferente dos costumeiros critérios de Apgar, causas de problemas pós-parto. Dizia que os recém-nascidos podem ficar tão deprimidos que têm apneias ou até  paradas cardíacas, além de distúrbios de sono, falta de fome etc., problemas que podem levá-los à morte.

Me impressionaram as causas “sociais” apresentadas pela doutora. Enquanto no útero, a criança está na penumbra, aquecida, com liberdade de movimentos, ouvindo a voz e os sons da mãe. Ao nascer, se é separada da mãe por problemas, tais como incubadora ou tratamento de alguma complicação, deixa de ouvir a voz da mãe, perde os movimentos, é manipulada por estranhos, ao ser amamentada; não enxerga o rosto da mãe, nem ouve a sua voz.

Esse estado de abandono lhe causa uma apatia, uma desistência de viver, e ela pode ir a óbito. Nas palavras da doutora: “ela já não olha para quem a alimenta, já não procura por comida, com aquele grito forte; no máximo chora baixinho, ou geme”.

Depressão. Pode?

E eu fico pensando se a humanidade não desenvolveu na alma uma depressão parecida, oriunda da nossa expulsão do Éden, que entendo como o parto da humanidade. Uma espécie de falta de ânimo existencial. Ou uma falta de alma, se preferir.

Sim, já não estamos mais naquele ambiente de amor, de ouvir a voz do Criador (metaforicamente nossa mãe); já não temos a liberdade de movimentos que tínhamos antes da tragédia. Agora estamos amarrados por panos que nos tolhem até os sonhos; muitos já não ouvem mais aquela voz à qual estavam acostumados desde que “se entendem por gente”; muitos já não são mais acalentados por ela, mas por outras vozes (na maioria eletrônicas); e adormecem ouvindo as “cantigas do Egito”.

Agora precisamos “ir à luta” e comer do suor do nosso rosto. Agora estamos sozinhos, em meio a estranhos. Muitas vezes sendo cuidados por eles. Para fazer contato temos que superar muitas barreiras, além do nosso próprio silêncio; além da nossa própria inabilidade congênita, proveniente da desconfiança. Já aprendemos que o amor nos torna vulneráveis. Algumas dessas barreiras simulam a própria vida, com intervalos comerciais, claro.

Talvez seja por isso que às vezes sonhamos com o céu. Ou que sentimos saudade dele. Talvez seja por isso que certos momentos familiares como os encontros do Natal; ou eclesiásticos como reuniões com irmãos, com quem tenhamos desenvolvido longa e profunda amizade, nos falem tanto de eternidade. E chegamos a dizer (e cantar): “é céu aqui”. Estamos dizendo: “é o Éden de volta”. Claro, um vislumbre da glória; passada e futura. Da passada, temos saudade; em relação à futura, temos esperança.

A depressão produz efeitos variados nas pessoas. Mas um sintoma comum é o desânimo. Perde-se a vontade de levantar pela manhã. Tudo fica difícil; nada vale a pena.

Houve um tempo em que tomei a famosa “Erva de São João”. É o Hipérico, um anti-depressivo natural. Ele atua de tal forma que certas motivações, que começavam a esmorecer, retornam, e os projetos e ideias voltam a valer a pena. E a gente se lança a eles, empreendendo esforços e mantendo o ânimo por longo tempo. Tornamo-nos longânimos.

Penso que o Evangelho atua assim, também, sobre nossa depressão existencial. Entretanto, ele vai mais fundo que o Hipérico; ele restaura a “esperança da glória”. Mais que isso, ele nos traz de volta muito do que foi perdido no Éden. E nos aponta para a plenitude de sua restauração. Mas já não o antigo Éden natural; porque a ordem das coisas é essa: primeiro o natural; depois o espiritual. De modo que a segunda criação, em Cristo, seja em tudo superior à primeira.

Até que nossas almas, saciadas de intimidade, já não sintam mais a separação. Porque, no seio de Abraão, esta já não existirá.

Deixe pra lá! Releve! Perdoe!
Tenho percebido que essas são palavras difíceis para algumas pessoas, e fáceis para outras. E o que está por trás dessas atitudes me intriga.
Parece que algumas pessoas têm uma grande capacidade de “deixar pra lá”, de relevar uma ofensa, de esquecer um agravo. É como se não se apegassem às coisas. Na hora da perda, não sofrem muito. Porém, não lutam tanto pelo que acham importante. Sem luta, não há vitória.
Outras parecem incapazes de abrir mão. Então, tudo o que a vida lhes tira, produz a dor de um assalto, de uma violência.
Entre estas últimas, as que mais me chamam atenção são aquelas que não “abrem mão” de suas razões. Seja em uma simples conversa, que acaba em discussão, seja em uma questão de direito, apegam-se às suas razões até às lágrimas. E se, após muitas lutas, essas coisas lhes são “tomadas”, entram em desespero de morte.
As pessoas do primeiro grupo sofrem menos, por não se apegarem demasiadamente. Não lutam tanto, não retêm tanto. Não perdem muito, mesmo quando são abusadas.
Entretanto, conheço gente que é capaz de se lembrar de todas as violências sofridas ao longo da vida. Coisas que lhes foram tiradas, batalhas perdidas, conversas encerradas, desconsiderações, injustiças, votos vencidos, estão todos lá, no depósito de passivos, de haveres, aguardando ressarcimento.
Sim, a vida (que acaba assumindo nomes de pessoas) lhes deve. Se algo nunca foi entregue, então lhes foi tomado. Se nunca foi perdoado, ainda é “dívida ativa”. Se nunca foi esquecido, está registrado para oportuna cobrança.
Talvez uma pessoa assim considere aquele que “deixa pra lá” um leviano. E talvez o que releva e esquece considere aquele que não “abre mão” um infeliz briguento.
Lembro-me de ter “deixado pra lá” direitos de consumidor, só para não arranjar briga. Porém, lembro-me de ter “pendurado” ofensas, aguardando o pedido de desculpas. Recordo-me de ter dado razão a quem não a tinha, para preservar a amizade, e de ter “aberto mão” da amizade por não achar justo “deixar barato”.
Certa vez, deparei-me com uma frase usada em um curso para noivos: “O que você prefere: ter razão ou ser feliz?” — como que a dizer que, se eu quisesse ter sempre razão, seria infeliz! Será que essa pergunta não nos ajudaria a definir melhor a qual grupo pertencemos?
Eu confesso: naquele exato momento me descobri preferindo ter razão. E argumentei para mim mesmo que a felicidade, à custa do que é certo, não vale a pena. Senti-me como a formiga invejosa, criticando a alegria “irresponsável” da cigarra.
Nesse momento, ouvi a palavra de Paulo aos coríntios conflagrados: “[…] por que não sofreis, antes, a injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano?” (1Co 6.7).
Ocorre-me então que talvez a atitude correta não seja o “deixar pra lá”, mas a entrega. Em vez de esquecer, entrego meus direitos, bens e razões ao reto Juiz. Assim, as coisas não ficarão sem consequência, sem julgamento, sem resposta. Contudo, estarei “deixando pra lá”, em um ato de fé, para ser feliz.
Imagino que, por esse caminho, Deus me acrescentará o orar pelos meus inimigos e me alegrará ao vê-los abençoados.
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Seja verdade tudo o que você disser; mas nem tudo o que é verdade deve ser dito. Não diga tudo o que pensa, mas pense em tudo o que vai dizer. Porque falar sem pensar é o caminho da ruína. Mas pensar sem falar traz tristeza ao coração.
Nem tudo o que você pensa ou planeja deve ser compartilhado — a não ser para os amigos, porque “esconder o leite” é um artifício de poder que cobra o preço da superficialidade relacional. Ninguém quer ser amigo de uma “caixa preta”. (João 15:15)


O caminho para o coração de uma pessoa é como um mapa do tesouro, e requer a decifração de pelo menos três enigmas: os sonhos que ela não conta (porque esquece quando acorda), os anelos sobre os quais não conversa (porque não se expressam em palavras, mas em silêncios) e os valores que não negocia (porque lhe foram insculpidos na alma). Quem decifrar esse coração chegará ao tesouro da sua intimidade. Talvez, até, do amor.

Meu telefone deu defeito. No conserto, descobri que sairia mais barato comprar um novo. Minha máquina de lavar não deu mais, depois de 25 anos. Troquei. Mas a nova, com cinco anos, já começa a pedir conserto.

Comprei um computador novo, pela Internet. Último tipo. Mas quando a encomenda chegou ele já estava ultrapassado. A oferta de novos computadores de mesa, no Brasil, subiu de 476, em 2009, para 835, em 2011.

A taxa de obsolescência aumenta à medida em que a taxa de inovação se acelera e o processo de produção fica mais barato. Fred Seixas, gerente da LG, afirma que o tempo das coisas está, de fato, menor. “A gente observa que o intervalo de troca de refrigeradores e lavadoras de roupa, que era de dez anos na década de 1990, hoje está em cinco ou seis anos”, diz.

Inevitavelmente, esses fenômenos pós-modernos têm efeito sobre nossas almas. Já sofremos transtornos provenientes da idade dos móveis, dos aparelhos, da decoração da sala. Temos vergonha de dizer o ano do nosso carro; e quando compramos este celular. Encontramos amigos antigos e ficamos constrangidos de dizer que ainda moramos naquele mesmo endereço — “você ainda mora lá?! (Matusalém!)”.

Temos dores de abstinência se não checamos nossos emails a cada dez minutos, ou nosso celular a cada minuto. O celular ligado tornou-se vital. E no culto, são poucos os que o colocam no modo silencioso. Afinal, corremos o risco não ouvir a chamada, distraídos que estaremos com a oração.

À mesa, com os amigos, tuitamos, pelo celular, com outros amigos. Mais que um conviva chato, incomoda-nos a ausência de mensagens. Então, se ela não chega, nós ligamos. Só para agitar. Só pra fazer alguma coisa.

De repente, essa obsolescência das coisas quer contaminar também nossas relações. E buscamos amigos novos em folha. Já não temos resistência para longas amizades, do tipo “de infância”, “casamento”, família etc. De repente, precisamos mudar, trocar. Afinal, a fila anda.

Ainda não sabemos bem como é este “dia” que chamamos de “pós”. Se soubéssemos, não o chamaríamos assim. Pós-modernidade é o tempo que sucede a modernidade. Mas ainda não temos um nome para ele. Segunda-feira é o dia que sucede o domingo. Se estivéssemos vivendo a primeira segunda-feira de nossas vidas, talvez a chamássemos de pós-domingo (em que houve uma feira).

Mas como discernir esse tempo tão louco e… gostoso? Na dúvida, precisamos preservar o essencial, até compreendermos bem o que ele traz de bom ou de perigoso. Seu computador ainda lhe atende? Fique com ele. Sua lavadora está nova? Fique com ela. Seu marido…

Eis um tema para a Escola Dominical. Já tenho o verso áureo: “e não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus” (Rm 12: 2). Que século? Que fôrma? Que “trans-fôrma-ção”? A Bíblia nos ensina que fomos feitos seres relacionais, que se assentam à mesa, com o Pai e com os irmãos, num imenso banquete, servido de pão e de vinho. Comunhão é da nossa essência e identidade. E para isso o pão se partiu e o vinho se verteu.

Decifremos, então, este dia, tateando no claro; tendo o essencial como referência. E se este século nos propuser obsolescência e superficialidade naquilo que faz parte da nossa constituição espiritual, digamos-lhe não. Isso será sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; um culto racional. Eis um caminho; a ser percorrido — de joelhos.

“Roubo de Veículos cresce 82% no DF”. Esta é a notícia que leio hoje, no Correio Braziliense. O sentimento é de que serei o próximo. De novo. Não será a primeira, nem segunda, nem terceira vez. Nem quarta. Nem… melhor parar, você não vai acreditar mesmo… Não levam o carro; apenas o rádio e o estepe. E deixam tudo quebrado, para você consertar.

Minha opinião é que estamos vivendo um apagão governamental no DF. Talvez no Brasil todo. O Estado já não tem mais dinheiro para fazer o que deve (educação, saúde e segurança). No entanto, temos uma das maiores cargas tributárias do mundo. A pergunta que não quer calar é aquela que não vou fazer aqui. Pior, todo mundo sabe a resposta para ela.

Ideias sem pé nem cabeça também pode ser desabafo, não?

A propósito, ao “colega” da foto abaixo, recomendo paciência. 😉