Aproveitando a polêmica decisão do governo paulista de internar usuários de crack à força, gostaria de voltar a pensar sobre um problema que já travessa séculos — uma disputa entre os arminianos e os calvinistas. Correndo todos os riscos da simplificação, descrevo-a assim: se Deus é soberano (como afirmam os calvinistas), o homem não tem livre-arbítrio; é marionete de Deus. Se, por outro lado, o homem pode rejeitar a Deus, e inclusive perder sua salvação (como afirmam os arminianos), então, como fica Sua soberania? A disputa vai longe, uma vez que os dois lados (arminianos e calvinistas) estão munidos de versos bíblicos perfeitamente contextualizados.

Louis Berckhof nos sugere que se duas afirmações bíblicas, em seus contextos, parecerem contraditórias entre si, afirme as duas, pois elas se resolvem em plano superior. Um exemplo é o texto de Paulo aos Romanos, 9 a 11, onde ele contrapõe a responsabilidade de Israel à afirmação de sua soberania aplicada ao caso de Esaú e Jacó.

Os arminianos e calvinistas mais combativos não seguem o conselho de Berckhof. Escolhem um lado e lutam por ele, apaixonadamente. Talvez essa paixão explique o fato de ainda não termos chegado a uma melhor compreensão do tema, tachando-o, quando muito, de paradoxal, ou de insolúvel. A Confissão de Fé de Westminster afirma, em uma mesma frase, que o homem está morto para escolher, mas tem livre-arbítrio.

Assim, à busca do referido “plano superior”, compartilho meu modo de ver esse problema. E já pergunto: e se Deus, em sua misericórdia e soberania, determinasse que o homem poderia decidir sobre amá-lo ou rejeitá-lo? E se Deus nos tivesse feito assim, considerando isso o cerne da “imagem e semelhança”? Uma criatura absolutamente livre, no que concerne à sua possibilidade de amá-lo ou não? Nesse caso, qualquer que fosse a resposta humana, estaria dentro das possibilidades previstas (e determinadas) pelo Criador. Pois bem, entendo que o Gênesis nos relata exatamente isso. E essa compreensão se reflete na própria Confissão de Westminster, capítulo III: “de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas”.

Resta, no entanto, um embaraço bíblico: Efésios 2 nos diz que o uso que fizemos (em Adão) da liberdade nos levou a uma escravidão tal que, se Adão foi livre um dia, o mesmo não ocorre conosco. O homem natural é escravo do pecado, de forma que sua vontade está aprisionada.

Bem, é aí que eu vejo a ligação entre a soberania de Deus e a liberdade humana. Ao invés de uma se contrapor à outra, harmonizam-se na mente e nos projetos do Altíssimo. Deixe-me explicar.

 

A balança

Imagine a situação humana como um fiel de balança. Adão foi feito com seu ponteiro no ponto zero, no prumo. Não pendia nem para a direita nem para a esquerda. É o que chamaríamos de livre-arbítrio. Mas Satanás se valeu de sua escolha desastrada e nos aprisionou a todos do lado esquerdo. Com cadeado. De forma que Efésios 2:1-3 fica retratado nessa situação. Não temos mais escolhas livres. Nosso “escolhedor”  está viciado, amarrado.

Então Deus, “por causa do grande amor com que nos amou”, e após nos ter revelado essa nossa condição desesperadora, encerrando-nos todos debaixo da desobediência (Rm 11:32), usa de misericórdia para com todos. Como?

Num determinado momento (ou período, ou fase, sei lá) de nossa vida, chamado pelo autor de Hebreus de Hoje , o Altíssimo se vale de seu poder e soberania e atua em nossas vidas, colocando nosso “fiel da balança” no centro de novo. Então, ele me diz: “escolhe livremente”. E a principados e potestades, diz: “ninguém interfere!” Nesse momento, por causa da soberania e do poder de Deus, e pela atuação de seu Espírito, somos livres; para aceitá-lo ou rejeitá-lo.

É importante ressaltar que, diferentemente do diabo, ele não leva nosso fiel para a direita total. Nem o amarra lá. Não. Ele é Senhor gentil: leva-o ao meio, onde exercitamos o “pendor do Espírito” ou o “pendor da carne” (cf. Rm. 8:5). E nos avisa que o pendor da carne é inimizade contra Deus (Rm 8:7).

Criei uma imagem, inspirado em C.S. Lewis. Qual das lâminas da tesoura corta o pano? Pois bem, aprouve a Deus que nossa salvação se fizesse por meio de uma “tesoura”. Deus se faz uma das lâminas, e nos atribui o papel da outra. Sem ele, estamos no inferno. Sem a nossa, estamos no inferno. Isso não nos iguala a Deus, pois jamais poderíamos, nós mesmos, construir essa tesoura e “cortar o pano”. Ele permanece no seu santo trono. Soberano. Justo, reto… e misericordioso.

Terminando o argumento, acho que é por isso que Jesus ensina a mulher samaritana que Deus procura alguma coisa. Procura verdadeiros adoradores. Criou a tesoura e espera que ofereçamos nossa lâmina, para nosso bem.

 

Uma Parábola

 

Na em 1996, a televisão levou ao ar uma reportagem sobre o uso de crack pelos adolescentes (e o assunto, hoje, virou epidemia).

Ao ver, na reportagem, o sofrimento dos pais e a luta ingente do drogado, lutando para se livrar das garras tirânicas da dependência, me ocorreu a seguinte parábola sobre esta questão da soberania divina e da liberdade humana. Ei-la.

Certo dia, um pai descobre que seu filho é um drogado, dependente de crack. Faz de tudo para ajudar o rapaz, mas este, ainda que lute para se desvencilhar, não tem mais forças para largá-la, e tenta se matar, inclusive para se livrar do complexo de culpa, pelo desgosto causado aos pais. O pai o acha a tempo (estava meio de olho), socorre-o e o salva.

Alguns dias depois, em conversa com o filho já convalesceste, propõe-lhe uma solução extrema. O pai tem uma idéia para devolver ao filho a força (o livre-arbítrio) para sair daquela situação. Propõe ao filho e este aceita.

Pegam um carro e vão, somente os dois, para um sítio isolado. Longe de tudo e de todos. Ali, tentarão lutar contra a droga, cortando lenha, subindo corredeiras, trabalhando pesado até caírem mortos de cansaço. O pai está atento e determinado a aguentar mais que o fragilizado rapaz.

No segundo dia, o jovem começa a mudar: a mostrar-se indócil, agitado, impaciente, nervoso, irado, truculento, violento. Ele precisa daquela droga. Seu organismo exige (seu “senhor” o está chamando de volta). O pai vai contemporizando, conversando, distraindo, sabendo que precisa ganhar tempo. Precisa, pelo menos, de uma semana (este é o tempo que os médicos estabelecem para a desintoxicação química do organismo).

No terceiro dia, o filho tenta fugir de noite, mas o pai, que a estas alturas está dormindo com um olho só, o intercepta. O garoto está transtornado. O pai o agarra. Este, cego por dores internas fortíssimas, agride o pai com fúria, e tenta correr. O pai se levanta e o alcança. Está determinado a ajudar o filho. Uma semana, é a meta. Faltam 4 dias ainda. Agarra o garoto, que tenta agredi-lo novamente. Mas desta vez o pai é quem o soca violentamente. O garoto cai desacordado.

O pai o leva de volta para a casa e o amarra na cama. Quando o rapaz acorda, começa a gritar, gemer, xingar, blasfemar, contorcer-se, desafiar o pai, dizer os piores desaforos. O pai tenta abraçá-lo, mas é recebido com cusparadas e palavrões. Uma noite de cão.

A estas alturas, imagino um calvinista dizendo: “aqui, o pai retirou o livre-arbítrio do menino”. E eu responderia: “que livre-arbítrio?”

Amarrado, o rapaz fica ali por mais quatro dias. Reclama de dores nas costas, de mau-jeito, de dores nas mãos, nos tornozelos, por causa das cordas. O pai, algumas vezes, tentou afrouxá-las, para aliviar o desconforto, para levá-lo ao banheiro, etc., mas ele tentou escapar. Foi preciso lutar, agarrar, bater de novo.

Bem, não vou me alongar nos detalhes deste transe medonho. O fato é que a semana se passa, e, ao raiar do oitavo dia, o garoto já não está mais suando, nem com cólicas, nem trêmulo, nem com dores na barriga. Passou. A dependência química está cedendo.

Nesse dia, logo pela manhã, o rapaz acorda com um cheiro de café coado na hora, broas de milho, pão, manteiga e outras guloseimas. Uma mesa posta. Ele estava quase de jejum, e se mostra faminto.

Então o pai o surpreende: chega na sua cama com um sorriso e desata-lhe as cordas. Solta-o e convida-o para o café. Ele toma um banho quente e se assenta à mesa. Está mais animado, e chega a balbuciar algumas palavras monossilábicas, em resposta às tentativas de conversa do pai. Está despertando de um pesadelo.

No meio do café, num gesto brusco, levanta-se e corre para a porta. Num segundo, já está lá na porteira. Mas estranha que seu pai não esteja ao seu encalço. Olha para trás e constata que ele ficou parado, na porta da casa. Desconcertado e curioso, ele para e arrisca uma olhada, como que a perguntar: você não vai me prender?

O pai, entendendo a perplexidade do filho, grita de lá: “filho, Hoje você é um rapaz livre. Das drogas e de mim. Você volta para elas se quiser; volta para mim se quiser. Filho, não quer terminar o café?”

Está chegando o Natal e começaremos a ouvir, aqui e ali, que “uma criança os guiará”, ou “um menino os guiará”, citando versões de Isaías 11:6.

Essa “teologia da criança” requer um sentido bem restrito: a criança como modelo de espiritualidade, apresentado por Jesus (Mt 18:1-6). Perfeito (não serei eu a criticar o Mestre). Mas proponho que tomemos cuidado para não fazermos uma leitura romântica de Isaías. Por exemplo, ouvi alguém dizer que seremos guiados e governados por uma criança. Fui cuidadoso e não perguntei: “como assim?” Mas fiquei sem saber o que a afirmação queria dizer.

A criança que me vem à mente cresceu, sofreu e morreu. E quando recebeu toda a autoridade, e o governo foi posto sobre seus ombros, já não era uma criança. (Alguém poderá complicar: “qual é a idade de um corpo glorificado?” Ou então: “e aquela criança que existe dentro de nós?”. Bem, aí não sei).

Mas quero contar uma coisa bem pessoal. Fui criado por um casal, meus pais.

“Tá”, dirá você.

O detalhe é que meu pai tinha (e ainda tem) um coração de criança e minha mãe era (e ainda é) uma adulta.

Olhando para trás, vejo que minhas melhores recordações advêm mais do meu convívio com o “educador-criança” do que com o “educador-adulto”. Bem, pode ter a ver com o fato de que o “educador-criança” não é disciplinador, repressivo, punitivo. Nem ao menos crítico. No máximo, manipulador, num sentido bem ingênuo do termo. As crianças são manipuladoras. Então, ser “guiado por uma criança” foi o lado gostoso da minha formação infantil e adolescente.

Se você aceitar uma metáfora imperfeita, esse lado gostoso era como a sobremesa de uma nutritiva refeição (aquele prato cheio de legumes, verduras, soja, peixe, rabanetes, jilós, quiabos e outras delícias detestáveis). O gostoso era outra coisa; era o doce que vinha como prêmio para quem rapou o prato.

Fechando: não sei o que seria de mim se tivesse sido guiado apenas por um menino. Talvez estivesse comendo docinhos até hoje. Obeso e desnutrido. Uma metáfora para “perdido na vida”, como toda “criança entregue a si mesma”. Talvez tivesse me mudado para a Terra do Nunca. E certamente hoje seria vergonha para minha mãe, como sugere o Pensador (Pv 29:15).

Pense aí. Se decidir reagir — e eu puder escolher —, prefiro críticas pueris.  🙂

 

 

Ouvi recentemente, no rádio, uma entrevista com famosa obstetra sobre depressão neonatal. Ela apresentava ma abordagem diferente dos costumeiros critérios de Apgar, causas de problemas pós-parto. Dizia que os recém-nascidos podem ficar tão deprimidos que têm apneias ou até  paradas cardíacas, além de distúrbios de sono, falta de fome etc., problemas que podem levá-los à morte.

Me impressionaram as causas “sociais” apresentadas pela doutora. Enquanto no útero, a criança está na penumbra, aquecida, com liberdade de movimentos, ouvindo a voz e os sons da mãe. Ao nascer, se é separada da mãe por problemas, tais como incubadora ou tratamento de alguma complicação, deixa de ouvir a voz da mãe, perde os movimentos, é manipulada por estranhos, ao ser amamentada; não enxerga o rosto da mãe, nem ouve a sua voz.

Esse estado de abandono lhe causa uma apatia, uma desistência de viver, e ela pode ir a óbito. Nas palavras da doutora: “ela já não olha para quem a alimenta, já não procura por comida, com aquele grito forte; no máximo chora baixinho, ou geme”.

Depressão. Pode?

E eu fico pensando se a humanidade não desenvolveu na alma uma depressão parecida, oriunda da nossa expulsão do Éden, que entendo como o parto da humanidade. Uma espécie de falta de ânimo existencial. Ou uma falta de alma, se preferir.

Sim, já não estamos mais naquele ambiente de amor, de ouvir a voz do Criador (metaforicamente nossa mãe); já não temos a liberdade de movimentos que tínhamos antes da tragédia. Agora estamos amarrados por panos que nos tolhem até os sonhos; muitos já não ouvem mais aquela voz à qual estavam acostumados desde que “se entendem por gente”; muitos já não são mais acalentados por ela, mas por outras vozes (na maioria eletrônicas); e adormecem ouvindo as “cantigas do Egito”.

Agora precisamos “ir à luta” e comer do suor do nosso rosto. Agora estamos sozinhos, em meio a estranhos. Muitas vezes sendo cuidados por eles. Para fazer contato temos que superar muitas barreiras, além do nosso próprio silêncio; além da nossa própria inabilidade congênita, proveniente da desconfiança. Já aprendemos que o amor nos torna vulneráveis. Algumas dessas barreiras simulam a própria vida, com intervalos comerciais, claro.

Talvez seja por isso que às vezes sonhamos com o céu. Ou que sentimos saudade dele. Talvez seja por isso que certos momentos familiares como os encontros do Natal; ou eclesiásticos como reuniões com irmãos, com quem tenhamos desenvolvido longa e profunda amizade, nos falem tanto de eternidade. E chegamos a dizer (e cantar): “é céu aqui”. Estamos dizendo: “é o Éden de volta”. Claro, um vislumbre da glória; passada e futura. Da passada, temos saudade; em relação à futura, temos esperança.

A depressão produz efeitos variados nas pessoas. Mas um sintoma comum é o desânimo. Perde-se a vontade de levantar pela manhã. Tudo fica difícil; nada vale a pena.

Houve um tempo em que tomei a famosa “Erva de São João”. É o Hipérico, um anti-depressivo natural. Ele atua de tal forma que certas motivações, que começavam a esmorecer, retornam, e os projetos e ideias voltam a valer a pena. E a gente se lança a eles, empreendendo esforços e mantendo o ânimo por longo tempo. Tornamo-nos longânimos.

Penso que o Evangelho atua assim, também, sobre nossa depressão existencial. Entretanto, ele vai mais fundo que o Hipérico; ele restaura a “esperança da glória”. Mais que isso, ele nos traz de volta muito do que foi perdido no Éden. E nos aponta para a plenitude de sua restauração. Mas já não o antigo Éden natural; porque a ordem das coisas é essa: primeiro o natural; depois o espiritual. De modo que a segunda criação, em Cristo, seja em tudo superior à primeira.

Até que nossas almas, saciadas de intimidade, já não sintam mais a separação. Porque, no seio de Abraão, esta já não existirá.

Deixe pra lá! Releve! Perdoe!
Tenho percebido que essas são palavras difíceis para algumas pessoas, e fáceis para outras. E o que está por trás dessas atitudes me intriga.
Parece que algumas pessoas têm uma grande capacidade de “deixar pra lá”, de relevar uma ofensa, de esquecer um agravo. É como se não se apegassem às coisas. Na hora da perda, não sofrem muito. Porém, não lutam tanto pelo que acham importante. Sem luta, não há vitória.
Outras parecem incapazes de abrir mão. Então, tudo o que a vida lhes tira, produz a dor de um assalto, de uma violência.
Entre estas últimas, as que mais me chamam atenção são aquelas que não “abrem mão” de suas razões. Seja em uma simples conversa, que acaba em discussão, seja em uma questão de direito, apegam-se às suas razões até às lágrimas. E se, após muitas lutas, essas coisas lhes são “tomadas”, entram em desespero de morte.
As pessoas do primeiro grupo sofrem menos, por não se apegarem demasiadamente. Não lutam tanto, não retêm tanto. Não perdem muito, mesmo quando são abusadas.
Entretanto, conheço gente que é capaz de se lembrar de todas as violências sofridas ao longo da vida. Coisas que lhes foram tiradas, batalhas perdidas, conversas encerradas, desconsiderações, injustiças, votos vencidos, estão todos lá, no depósito de passivos, de haveres, aguardando ressarcimento.
Sim, a vida (que acaba assumindo nomes de pessoas) lhes deve. Se algo nunca foi entregue, então lhes foi tomado. Se nunca foi perdoado, ainda é “dívida ativa”. Se nunca foi esquecido, está registrado para oportuna cobrança.
Talvez uma pessoa assim considere aquele que “deixa pra lá” um leviano. E talvez o que releva e esquece considere aquele que não “abre mão” um infeliz briguento.
Lembro-me de ter “deixado pra lá” direitos de consumidor, só para não arranjar briga. Porém, lembro-me de ter “pendurado” ofensas, aguardando o pedido de desculpas. Recordo-me de ter dado razão a quem não a tinha, para preservar a amizade, e de ter “aberto mão” da amizade por não achar justo “deixar barato”.
Certa vez, deparei-me com uma frase usada em um curso para noivos: “O que você prefere: ter razão ou ser feliz?” — como que a dizer que, se eu quisesse ter sempre razão, seria infeliz! Será que essa pergunta não nos ajudaria a definir melhor a qual grupo pertencemos?
Eu confesso: naquele exato momento me descobri preferindo ter razão. E argumentei para mim mesmo que a felicidade, à custa do que é certo, não vale a pena. Senti-me como a formiga invejosa, criticando a alegria “irresponsável” da cigarra.
Nesse momento, ouvi a palavra de Paulo aos coríntios conflagrados: “[…] por que não sofreis, antes, a injustiça? Por que não sofreis, antes, o dano?” (1Co 6.7).
Ocorre-me então que talvez a atitude correta não seja o “deixar pra lá”, mas a entrega. Em vez de esquecer, entrego meus direitos, bens e razões ao reto Juiz. Assim, as coisas não ficarão sem consequência, sem julgamento, sem resposta. Contudo, estarei “deixando pra lá”, em um ato de fé, para ser feliz.
Imagino que, por esse caminho, Deus me acrescentará o orar pelos meus inimigos e me alegrará ao vê-los abençoados.
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Seja verdade tudo o que você disser; mas nem tudo o que é verdade deve ser dito. Não diga tudo o que pensa, mas pense em tudo o que vai dizer. Porque falar sem pensar é o caminho da ruína. Mas pensar sem falar traz tristeza ao coração.
Nem tudo o que você pensa ou planeja deve ser compartilhado — a não ser para os amigos, porque “esconder o leite” é um artifício de poder que cobra o preço da superficialidade relacional. Ninguém quer ser amigo de uma “caixa preta”. (João 15:15)


O caminho para o coração de uma pessoa é como um mapa do tesouro, e requer a decifração de pelo menos três enigmas: os sonhos que ela não conta (porque esquece quando acorda), os anelos sobre os quais não conversa (porque não se expressam em palavras, mas em silêncios) e os valores que não negocia (porque lhe foram insculpidos na alma). Quem decifrar esse coração chegará ao tesouro da sua intimidade. Talvez, até, do amor.

Meu telefone deu defeito. No conserto, descobri que sairia mais barato comprar um novo. Minha máquina de lavar não deu mais, depois de 25 anos. Troquei. Mas a nova, com cinco anos, já começa a pedir conserto.

Comprei um computador novo, pela Internet. Último tipo. Mas quando a encomenda chegou ele já estava ultrapassado. A oferta de novos computadores de mesa, no Brasil, subiu de 476, em 2009, para 835, em 2011.

A taxa de obsolescência aumenta à medida em que a taxa de inovação se acelera e o processo de produção fica mais barato. Fred Seixas, gerente da LG, afirma que o tempo das coisas está, de fato, menor. “A gente observa que o intervalo de troca de refrigeradores e lavadoras de roupa, que era de dez anos na década de 1990, hoje está em cinco ou seis anos”, diz.

Inevitavelmente, esses fenômenos pós-modernos têm efeito sobre nossas almas. Já sofremos transtornos provenientes da idade dos móveis, dos aparelhos, da decoração da sala. Temos vergonha de dizer o ano do nosso carro; e quando compramos este celular. Encontramos amigos antigos e ficamos constrangidos de dizer que ainda moramos naquele mesmo endereço — “você ainda mora lá?! (Matusalém!)”.

Temos dores de abstinência se não checamos nossos emails a cada dez minutos, ou nosso celular a cada minuto. O celular ligado tornou-se vital. E no culto, são poucos os que o colocam no modo silencioso. Afinal, corremos o risco não ouvir a chamada, distraídos que estaremos com a oração.

À mesa, com os amigos, tuitamos, pelo celular, com outros amigos. Mais que um conviva chato, incomoda-nos a ausência de mensagens. Então, se ela não chega, nós ligamos. Só para agitar. Só pra fazer alguma coisa.

De repente, essa obsolescência das coisas quer contaminar também nossas relações. E buscamos amigos novos em folha. Já não temos resistência para longas amizades, do tipo “de infância”, “casamento”, família etc. De repente, precisamos mudar, trocar. Afinal, a fila anda.

Ainda não sabemos bem como é este “dia” que chamamos de “pós”. Se soubéssemos, não o chamaríamos assim. Pós-modernidade é o tempo que sucede a modernidade. Mas ainda não temos um nome para ele. Segunda-feira é o dia que sucede o domingo. Se estivéssemos vivendo a primeira segunda-feira de nossas vidas, talvez a chamássemos de pós-domingo (em que houve uma feira).

Mas como discernir esse tempo tão louco e… gostoso? Na dúvida, precisamos preservar o essencial, até compreendermos bem o que ele traz de bom ou de perigoso. Seu computador ainda lhe atende? Fique com ele. Sua lavadora está nova? Fique com ela. Seu marido…

Eis um tema para a Escola Dominical. Já tenho o verso áureo: “e não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, perfeita e agradável vontade de Deus” (Rm 12: 2). Que século? Que fôrma? Que “trans-fôrma-ção”? A Bíblia nos ensina que fomos feitos seres relacionais, que se assentam à mesa, com o Pai e com os irmãos, num imenso banquete, servido de pão e de vinho. Comunhão é da nossa essência e identidade. E para isso o pão se partiu e o vinho se verteu.

Decifremos, então, este dia, tateando no claro; tendo o essencial como referência. E se este século nos propuser obsolescência e superficialidade naquilo que faz parte da nossa constituição espiritual, digamos-lhe não. Isso será sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; um culto racional. Eis um caminho; a ser percorrido — de joelhos.