Versão ampliada de artigo publicado na seção Ponto Final da revista Ultimato edição #377.

Quando o livro Há Poder em Suas Palavras, de Don Gossett, foi lançado, em 1976, circulavam — ou passaram a circular, em razão do sucesso do livro, não me lembro bem — no meio evangélico, expressões tais como “comandar o céu da terra”, “ordenar bênção ou maldição”, “amarrar o diabo” e coisas assim. Meu primeiro desejo foi de lê-lo, por acreditar que, de fato, nossas palavras têm poder, embora, talvez, em sentido diferente daquele sugerido por Gossett. Mas passou, e não cheguei a lê-lo. Agora, tantos anos depois, volto a pensar no tema, correndo o risco de caminhar por uma trilha já aberta.

Tudo começou com a palavra de Deus. Ele disse: “Haja”, e tudo foi feito. E era muito bom. Essa palavra criadora era capaz também de ordenar o que estava (ou “tornou-se”, conforme alguns estudiosos) sem forma, vazio e em trevas (Gn 1,2); tinha poder, ainda, para sustentar todas as coisas (Hb 1,3). Essa palavra, em alguma medida, foi transmitida a Adão. E Deus o incumbiu de usá-la para ordenar seu jardim, dando nomes aos animais (Gn 2,19,20), fazendo de Adão seu cooperador. Assim como Deus havia separado o mar da terra, a luz das trevas e o dia da noite, Adão distinguia, por sua palavra, peixes de mamíferos, aves de répteis, jumentos de cavalos. E chamou sua mulher de varoa, porquanto do varão havia sido tomada (Gn 2,23), e assim foi. E Deus achou bom.

Se pela Palavra as coisas foram criadas; se pelo Verbo tudo se sustenta conforme os propósitos do Criador, assim também essa Palavra se tornaria, milênios mais tarde, a luz dos homens, de modo que, quando os nossos caminhos se achassem sem forma e vazios; quando as trevas usurpassem o espaço da luz e da vida, ela brilhasse entre nós, fosse na forma original do Verbo, fosse na dimensão das palavras e do exemplo de suas testemunhas (Jo 1, 1-5). Enquanto tal propósito não alcançava sua plenitude na encarnação do Verbo, o salmista já antecipava seu advento, em forma de poesia: “lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos” (Sl 119,105).

Tal é o poder da palavra na construção do “mundo dos homens”, o mundo dos significados, o mundo da cultura, que encontramos, na Bíblia (RAA), 1275 versículos contendo a palavra “palavra”.  Palavras de Deus e palavras de Adão; palavras de bênção e de maldição; de alegria e de dor; de fé e de incredulidade; de esperança e de desespero; verdadeiras e falsas; eternas e efêmeras; de vida e de morte.

Jesus atribuía muita importância às palavras dos homens. A tal ponto que nos recomendou cuidado no seu uso, afirmando que “de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo; porque, pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas tuas palavras, serás condenado” (Mt 12, 36,37).

Talvez Jesus tivesse em mente que Deus, tal como fizera com Adão, e também agora com ele próprio, “confiou-nos a palavra da reconciliação” (2Co 5,19), fazendo-nos, mais uma vez, seus cooperadores; “De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio” (2Co 5, 20). Num paralelismo maravilhoso, o primeiro e o segundo Adão são chamados a cuidar do “jardim da criação”. Primeiro, o natural, e depois o espiritual (1Co 15, 45-49).

É dessa forma que entendo haver poder em nossas palavras, nas “palavras de Adão”. Penso, em especial, naquelas de natureza paternal e pastoral. Isso porque nelas há uma espécie de “investidura de cooperador”, seja natural, no caso da paternidade (do pai ou da mãe), seja por ordenação, no caso do pastorado. No momento em que o pai diz ao filho, ou pastor diz à sua igreja: “você é…”, ou “você não é…”; “você sempre…”, ou “você nunca…”, nesse momento de definição, em que nós, “adões e varoas”, participamos, pela palavra, do “cultivo do seu jardim”, saibamos que podemos estar sobre ele aspergindo palavras de vida ou de morte; de luz ou de trevas.

Tenhamos sempre em mente, a nos orientar e incentivar, a energia vital que advém de palavras tais como: “tu és o meu filho amado, em ti me comprazo” (Lc 3, 22). Tendo-as guardadas no coração, aquele filho venceu todas as batalhas da vida. O Filho venceu o mundo.

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