ELE ACHAVA  que não valia mais a pena discipular. “Ninguém ouve, ninguém quer saber”, dizia. Tem gente que, por não saber, acha que ninguém sabe; e por isso desanda a dar palpite sobre tudo nas redes sociais. Outros, imbuídos do espírito de sucesso, preferem ensinar.

É assim que o presbítero via a tsunami da informação, varrendo as áreas costeiras do conhecimento e dos costumes. Ela vem com imensa força; relativizando tudo. Tudo é discutível.

É o fenômeno da pluralidade, a transformar nossa sociedade em uma espécie de supermercado, em cujas prateleiras competem inúmeras opções para tudo o que você quiser consumir. Desde marcas de sabonete até, novidade, opções de gênero.

A pluralidade “horizontaliza” as escolhas nas prateleiras. Isso quer dizer que nenhuma é melhor que a outra; depende de você. Nenhuma pode julgar a outra, embora as propagandas de diversidade sexual, de bancos ou de sabão em pó tentem fazer isso, com o artifício da sedução.

Nunca houve tanta informação disponível. Acessível a quem quiser; atropelando os livros e os mestres; destronando a televisão e o cinema. Ela está na ponta dos dedos de qualquer criança. E na crista dessa onda vem também uma espuma de garrafas pet, sacos plásticos e detritos urbanos de toda natureza; uma metáfora para o lado maléfico da produção cultural humana. Mas, nesse supermercado, quem se arrisca a dizer o que é lixo?

Entretanto, essa onda de informação, como as tsunamis, não tem profundidade. É impossível saber de tudo, sentir tudo, experimentar tudo. Muitos chegam a duvidar se sabem alguma coisa. Porque informação sem formação é apenas acúmulo de dados. E os dados são, por natureza, burros. Além de mutáveis. Líquidos!

Essa tsunami vem transformando o nosso modo de viver. Na verdade, está se transformando em um modo de viver! Ela nos propõe as prateleiras abarrotadas e nos diz que podemos escolher. “Você decide!” E como ela mesma tornou as águas rasas, optamos sem critérios, sem profundidade, sem perspectiva de tempo. Fazemos escolhas impulsivas, imediatistas e tolas, seja na escolha de um sapato, seja de um casamento.

Resultado, vivemos sob o império dos desejos, carinhosamente chamados de sonhos. “Realize seu sonho — agora!”, diz a mídia. Se precisar de crédito, parcelamos em 10 vezes no cartão.

Esse modo de ser e de viver chegou à igreja, claro. E ali também cresce, educadamente, a falta de consenso sobre antigas bases de fé. Ali, a “prateleira” é tão real quanto sutil. A propósito, ele chegou e saiu da igreja: o antigo evangelho, transformado em produto, passou a ser oferecido como “know-howde vida” no mercado. Um mercado de gente perdida, frustrada, desesperada, deprimida e rica.

E o velho presbítero sentiu-se obsoleto. “Até que entrou no santuário de Deus” (Sl 73:7) e viu que ainda havia gente desejosa de aprender sobre a verdadeira vida. E viver sob a luz e a autoridade do evangelho, “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:16).

“Vocês têm certeza? Não se trata de um workshop; não é uma ferramenta, não é um caminho fácil”, disse-lhes o presbítero. “Ao contrário, é uma estrada estreita, longa e nem sempre glamorosa!”

E quase desmaiou de alegria quando os ouviu pedir: “podemos caminhar com você?”.

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Este texto foi publicado no Ponto Final da edição 369

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