Certo mestre, vendo que seus discípulos contendiam entre si a respeito do significado e também do uso litúrgico de um versículo bíblico, propôs-lhes uma parábola, com o propósito de exortá-los sobre a necessidade do uso de ferramentas mínimas de interpretação (hermenêutica), envolvendo língua, história, geografia e cultura, para a compreensão do conteúdo de passagens das Escrituras.

Disse-lhes ele: em uma mesa de lanchonete sentaram-se sete homens piedosos, dispostos a elucidar o verso bíblico que haviam lido em recente momento devocional. Tratava-se de 1 Jo 1:9, que diz:

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça”.

O primeiro deles sugeriu, a título de introdução, que a simples leitura do texto bíblico, sem alguma interpretação, não era boa técnica litúrgica, pois sua compreensão poderia não ser uniforme entre os presentes. O segundo acrescentou que deveria ser explicado que o simples ato de confissão não deveria ser realizado como ato vazio. Um terceiro, dando sequência aos argumentos, sugeriu que se salientasse a necessidade de prévio arrependimento, uma vez que a confissão sem arrependimento seria vazia. Os dois primeiros receberam essa opinião como concordância e exemplificação do que estavam dizendo.

— Mas a quem deve ser dirigida essa confissão? — disse o quarto irmão. — A Deus ou aos irmãos? Isso deve ser mencionado. Sabemos que um pecado contra Deus é, normalmente, resultante de um pecado contra o próximo. No que é atalhado pelo quinto irmão com a expressão: “e vice-versa”.

O sexto irmão, até aqui silencioso, diz que isso tudo lhe parecia bom e sensato, mas ainda assim preocupação menor, diante da dificuldade de explicar a necessidade de confissão dos pecados para ser purificado da injustiça. — Devemos confessar uma injustiça sofrida? — indagou ele, em tom enigmático, deixando transparecer sua própria insegurança. A isso reage o sétimo irmão: “essa injustiça não é aquela que se sofre, mas a que se comete, e que, por isso mesmo, nos torna injustos. Assim, essa condição de injustiça é que precisa ser confessada”, concluiu.

Nesse momento, os seis irmãos piedosos, atônitos, percebem que suas opiniões não lhes garantiam haver compreendido correta e completamente o versículo. E que, de simples detalhe litúrgico, haviam passado a discutir a própria interpretação do texto bíblico. E agora, que fariam?

***

Tendo o mestre terminado sua parábola, seus discípulos lhe perguntaram: mestre, como poderíamos nós, no lugar desses sete piedosos irmãos, chegar a um entendimento seguro de tão singelo verso bíblico? E assim também de toda a Escritura?

E o mestre lhes disse: cercai-vos de bons professores e de bons livros, que vos permitam acesso ao ambiente original do texto, o “lá e então”, e que vos facilitem a transposição daqueles conteúdos para a atualidade, o “aqui e agora”.

A estas alturas, eu paro e me pergunto: não é o que temos feito em nossas escolas bíblicas dominicais, em nossas faculdades teológicas, nossos seminários e institutos bíblicos? Não seria esse o propósito último de revistas como Ultimato? Não estaria aí a missão fundamental das editoras cristãs? Somos gratos a Deus por essa fartura de recursos hermenêuticos, disponíveis a qualquer crente alfabetizado.

Perseveremos, então, em ouvir aos nossos mestres e a ler bons livros.

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