Versão completa do artigo publicado na seção “Ponto Final” da revista Ultimato 361

ult_361_ponto_finalRecentemente, um irmão sentou-se ao meu lado, no culto. Ao reparar que eu fazia apontamentos do sermão que ouvíamos, perguntou-me, baixinho, em tom de gracejo: “E você ainda tem o que anotar?”. Com certeza, ele se referia ao meu “tempo de estrada”, a contrastar com a idade do pregador. Não era hora de conversa, portanto a observação ficou entendida como uma simpática saudação. Ficou assim. Mas, em minha mente, guardei para depois.

Já em casa, lembrei-me de outro episódio, mais antigo. Acho que um puxou o outro.  Foi assim: um irmão de igual modo “sênior”” na igreja revelava que não gostava de ouvir jovens pregadores porque eles eram muito incipientes e pouco ou nada tinham a lhe acrescentar. Essa era a razão por que, ao saber quem seria o pregador da noite, algumas vezes se retirava. Agia assim também em relação a pregadores mais tarimbados, mas de cuja doutrina discordava, ou àqueles por quem nutria “antipatia teológica”. Levantava-se e saía porque não gostava do modo de pregar daquele irmão. Uma conversa incômoda, recordo bem.

Sugeri ao irmão que, talvez, um ambiente estimulante fosse a escola dominical, por causa das oportunidades de diálogo ou de participação. Salas de aula costumam ser mais acolhedoras. Se você quer ficar quieto, pode; mas se prefere participar, sempre há espaço. Eu tentava aliviar o clima da conversa. Para minha surpresa, ele retrucou que, embora nunca tivesse recebido diploma, naquela escola ele já era formado. Tinha, inclusive, o curso completo de teologia em um bom seminário da cidade, com foco em Novo Testamento. E desse ele tinha diploma.

E a conversa foi por aí: grego koinê, hebraico, hermenêutica, traduções da Bíblia etc. Na verdade, não foi exatamente uma conversa, pois o irmão, de forma coerente, ouvia pouco.

Bem, a vida prosseguiu. Mas aquela conversa me alarmou, ao contemplar um irmão impermeável ao ensino. Como se, em sua alma, a Palavra de Deus tivesse produzido anticorpos.

Era a lição que, com o passar do tempo, consolidaria-se em minha mente. Seria eu diferente dele? Para ser verdadeiro, eu não tinha dificuldade em enumerar as vezes em que desanimei com pregações e pregadores, jovens e experientes, antes mesmo de começarem. Por quê? Hoje, penso que Deus esteve me falando, no silêncio. Não me deixou esquecer ou menosprezar o episódio do irmão preparado. Nem me permitiu olhar somente para ele; fez-me olhar para mim mesmo.

E o discernimento veio com o tempo. Compreendi que esses momentos ocorrem quando chego à casa do Senhor como quem chega para um show, uma palestra, uma aula; enfim, para algum entretenimento. Quero dizer que há dias em que me esqueço de fazer a oração mais básica de todas: “Fala comigo, Senhor”. E se essa oração é feita pelo oficiante logo no início do culto, eu não a endosso, não me aproprio dela. Assim, não predisponho meu coração a ouvir a voz de Deus. Talvez nem tenha ido à igreja para isso.

Entretanto, ao perceber, essa frivolidade do meu coração, decidi impor-me a disciplina dessa singela oração. Fosse apenas dizendo amém ao celebrante, fosse proferindo-a eu mesmo. O importante é a disposição do coração. E as coisas mudaram. Quando você se abre ao milagre da “palavra”, acaba ouvindo coisas inefáveis, sejam elas exortações, sejam palavras de ensino, consolo ou ânimo. Ao orar “fala comigo”, já não importa tanto quem vai subir ao púlpito, pois sabemos e cremos que Deus fala.

É claro que isso não justifica pregadores preguiçosos, mal preparados, desleixados, biblicamente equivocados e coisas assim. Mas isso é assunto a ser resolvido entre o pregador e Deus.

Quando o irmão que se assentou ao meu lado perguntou-me baixinho, em tom de gracejo: “E você ainda tem o que anotar?”, ele não podia imaginar o quanto eu estava feliz e excitado com a perspectiva de poder ouvir, mais uma vez, a Palavra de Deus sendo proferida ao meu coração. Sim, eu já havia orado: “Fala comigo, Senhor!”, e agora estava de bloco de notas na mão.

  1. Pena que ainda há pessoas que não constataram que O Senhor fala nos de diversas maneiras. Diariamente recebemos lições preciosas do Senhor.É o pássaro que canta a chuva que caiu a criança que nasceu o amor que floresce sempre no homem e finalmente o milagre da conversão a Jesus. Louvado Seja O Senhor.

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